Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
www.culturapara.art.br

17 de fev de 2010

NOSFERATU

Quando a lua uiva
sobre sonos e sopra
o pó das sepulturas,
exalo meu perfume e
negro lume, escapo

A capa, asa de negrume
envolve teu corpo, ar
repiando o dorso, car
ícia de brasa gelada

E por fim deixo em tua
pele-página, orifícios,
dupla marca, ver
melho sangue: cravadas

Antônio Moura,
Do livro: DEZ poemas,
1996 - Belém-Pa
TRAVESSIA

Um dia para atravessar – sol
entre duas noites imensas,

tendo como companhia o corpo,
este pequeno animal que não

te pertence e que, sem nada
perguntar, se oferece, devotadamente,

ao tempo, deus que também é
o próprio corpo em silêncio

Um dia para transpor tendo por alimento
a poeira da estrada que se estende

branca, do nascente ao poente e que,
lentamente, transforma-se em

riacho negro que passa sob a
ponte suspensa da Via Láctea

Ir, à outra margem, de acordo
com o que a própria ida engendra

Ora com o silvo das serpentes sob o passo
Ora andando sobre as águas do poema

Antônio Moura
A ESPERA

À espera, de pé, na pedra
entre a esfera verde do mar

e a estrela que a cada
noite se aproxima, falas

cada vez mais mudo,
numa voz que escuta o fundo

de outra voz que vem
e diz-não-diz em eco,

hein, idioma de algas
algo assim num som surdo:

nada, vestido de corpo e carma,
enquanto se dissolve o mundo

Antônio Moura,
do livro “O vazio detrás da estrela”
NA BELÉM de-bolso,
pouca, de pôquete, vinda
na bagagem
contigo emigrada,
cabia

o lugar aqui súbito
exorbitado num ,
toda a poesia-mestra de Max Martins
anterior ao Para ter onde ir,
um ramo olente de cidreira seca,
um estoque de sotaques,
tua estrela de contrabando no bolso,
hum mil dólares na sola
do sapato — e
uma última vez Val-de-Cãs
na despedida

em direção à
escala de sete noites
em Caiena,
caminho de ida
(a bordo de teu destino,
estrela-passageira, cruzando
à noite a Selva queimada
sob a asa, ala
de não-fumantes,
reclinado sob o luminoso
TUDO É MAIS TARDE”)
sem volta:

foi tudo
(um tudo) que havia
a declarar.


Age de Carvalho,
     Do livro "Trans" (inédito), 2010