Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
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23 de mai. de 2010


A sombra da ausência


O corpo vai, a sombra fica.
Um eco sem voz que assombra

a sala, a mala sendo arrumada
para a viagem, que, dia-a-dia

se faz um pouco sem saber se
é volta ou ida – O copo quebra,

o sabor fica, a aura de um hálito
em torno à boca que se intensifica,

quando um conhecido fantasma
passa pelos terraços da memória

e evoca um nome, um aroma, uma
hora perdida entre as folhas secas

de um outono que se deteriora
conforme a mão do inverno o toca

O céu se ensombra, o azul fica.
Em alguma dobra das pálpebras

da íris, dos cílios, sua luz habita.


                Antônio Moura

17 de fev. de 2010

NOSFERATU

Quando a lua uiva
sobre sonos e sopra
o pó das sepulturas,
exalo meu perfume e
negro lume, escapo

A capa, asa de negrume
envolve teu corpo, ar
repiando o dorso, car
ícia de brasa gelada

E por fim deixo em tua
pele-página, orifícios,
dupla marca, ver
melho sangue: cravadas

Antônio Moura,
Do livro: DEZ poemas,
1996 - Belém-Pa
TRAVESSIA

Um dia para atravessar – sol
entre duas noites imensas,

tendo como companhia o corpo,
este pequeno animal que não

te pertence e que, sem nada
perguntar, se oferece, devotadamente,

ao tempo, deus que também é
o próprio corpo em silêncio

Um dia para transpor tendo por alimento
a poeira da estrada que se estende

branca, do nascente ao poente e que,
lentamente, transforma-se em

riacho negro que passa sob a
ponte suspensa da Via Láctea

Ir, à outra margem, de acordo
com o que a própria ida engendra

Ora com o silvo das serpentes sob o passo
Ora andando sobre as águas do poema

Antônio Moura
A ESPERA

À espera, de pé, na pedra
entre a esfera verde do mar

e a estrela que a cada
noite se aproxima, falas

cada vez mais mudo,
numa voz que escuta o fundo

de outra voz que vem
e diz-não-diz em eco,

hein, idioma de algas
algo assim num som surdo:

nada, vestido de corpo e carma,
enquanto se dissolve o mundo

Antônio Moura,
do livro “O vazio detrás da estrela”