Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
www.culturapara.art.br

26 de set de 2010



MENTIRAS E VERDADES NO MESMO CHÃO




Não me negues a palavra. Pelas artes de uma palavra segui sozinho ouvindo o grito de outros companheiros a percorrer outro caminho. Naquele tempo, senhora, os pântanos me atraíam e os arrepios do meu corpo aumentavam à visão dos esverdeados, meu corpo fremia. Não me negues a palavra. Pelas artes de uma palavra abri picada diferente que não me levava ao bosque. Ouvia meus companheiros rirem e chorarem fascinados com as veredas, os frutos quase ao alcance das mãos. O meu caminho, senhora, tinha reverberações encantatórias, mentiras e verdades no mesmo chão e o veneno das folhas eu só podia descobrir pelo exercício de meu paladar e do meu corpo. Poderá algum coração, senhora, saber das tantas vezes que estive à beira da morte pelas ânsias de saciar o meu desejo?

Enquanto meus companheiros avançavam em rodopios e encantamentos, eu vencia distâncias tão pequenas que me parecia estar sempre no mesmo lugar.

Não me negues a palavra de cujas artes se nutriu tanto exílio pois se assim o fizeres estarás negando a permissão e as promessas. Não é esse o silêncio de que preciso para atravessar a floresta. Imposto o sossego me faltarão os sons articulados, os ruídos para que não percamos a memória. Não me negues a palavra para que a trilha não se altere nem as perspectivas sejam removidas.


Maria Lúcia Medeiros


15 de ago de 2010


TEMPO IMAGEM


Inteiro no corpo da palavra o charco trazia o cheiro da mata caída, deixando a larva submersa no rastro de um rio. Lacrando rimas em silêncio joguei ao vento a fumaça que veio das cinzas e no lamento da palavra deixei fluir um momento de poesia: No rio ainda resta um barco solto no ócio da palavra silenciosa, exalando ópios na trajetória do sonho. Sem quase nenhum horizonte o barco ainda passa diante do rio, onde há palavras sem rumo querendo água corrente na cor de uma sombra, ainda velada em rastros no porto da memória. Apalavrada em sementes a larva encontra o seu horto no curso da história e o barco navega sem parar no tempo.

     Milton Meira



O MESMO OLHAR DA RUA



...ainda não sabia usar meu olhar quando visse algo parecido com a cena de ontem, um homem vestido por um short suado e riscado de noites mal dormidas andando, caminhando? através do asfalto das duas da tarde, Almirante Barroso, a via mais movimentada da cidade de Belém. Um louco? um transeunte torto? um ermitão? ou um expectador da vida perigosa? Um flanneur pós moderno, líquido, ou alguém que parou no tempo dos neandertais e agora revisita sua floresta remodelada de cal? Os carros enfileiravam-se para não se perder diante de uma possível morte  assassinato no trânsito caótico; ele parecia estar num mundo à parte, queria morrer com essa velocidade intrínseca, seca e suja por fora de seus vestidos rotos. seu rosto não me parecia perdido, ele sabia o que estava fazendo e não fazendo ali, em plena secura de um sol achatado pelas nuvens amordaçadas pelo mormaço... Ele caminhava descalço com pés quentes e calejados de destino, ali, no quase equador, aquele homem sem sombrinha qualquer, poderia se despedaçar a qualquer segundo entre as latarias folgadas dos ônibus sucateados, ou uma motocicleta sem luz, um Jeep reluzente, uma bicicleta, um carro pipa...ele não parecia se importar de que forma morreria, o formato padrão da morte é um empacotamento sinistro que deságua em geladeiras-calabouços do necrotério público, mas aquele homem sabia chamar atenção, e me chamou daquela forma pouco convencional em que o medo que eu possuía naquele instante de quase morte, eu poderia sentir a posse de seu sangue se misturando à gasolina e fumaça de turbinas e ao cotidiano daquelas pessoas que passariam por ali, veriam aquela tragédia e que no máximo serviria para uma crônica de alguém que escreve em blogs publicar, ou para quem sabe, a partir dali, pudesse ver o mundo com bons olhos, olhos de quem não se perderia mais em seus destinos.


           Josette Lassance

31 de jul de 2010


no mais,


ardo em brisas

estanco estrelas
perco trilhas

                               aldeias,   minhas ilhas

enquanto...
um sopro rege a mansidão
                              
         
                                          luas, o verbo ancora
                                          e cala o rio
                                          a verve
                                          serpenteia o peixe
                                          o aço, a rede

 
no mais,
                 adormeço

                                          o mundo vira



   Vasco Cavalcante, 2009


27 de jul de 2010


Não é a água (O) que se bebe



Para encantar pedras mais leves,
dizer
à chuva: eis: ele, o Orvalho em chamas

Mesmo  Se espessamente
caindo sobre nós

O
lodo
O
escorpião

não escondeu seu mal para nascer
O
Anjo sobre a Terra?

A fome

Não sonha com a abundância?

E o pão,
não foi um dia o filho?

Vê sem agonia o que te diz o início deste dia:

se com a Sombra foram tuas as Asas que ascenderam à Lua, tua Poção de Chamas
insistir
na devoção pela Ausência,
soprar
as cinzas
para criar um bosque de sussurros

orado

junto ao fogo
pela Água da Luz apagado: eis: Tu, o Orvalho humanizado

       Vicente Franz Cecim

19 de jul de 2010


POEMA


Sereno ele retorna do impossível
Traz no bico de prata
a rosa azul dos sonhos que tivemos
e nos pés de cristal a morna terra das estrelas
Branco e tranquilo e leve e livre e alegre
quase como se morto já estivesse
o pássaro feliz esvoaçava em meu seio
afugentando as sombras com seu canto


           Mário Faustino


10 de jul de 2010


O RESTO SÃO PALAVRAS


Fora com esse mar
                                 – Tu és um verso
apenas
              cego e invertebrado
                                             Sonho
de alvaiada máscara
e nada mais

Ou menos: Laudas em vão
em gretas
esse mar de lá
                          De lápide

Que sabes tu senão da geografia
(magra até aos ossos)
do deserto?     Aqui todo começo
e fim de tua viagem
                             pioneiro e prisioneiro
do teu próprio rastro
Atrás da máscara
não há rosto – há palavras
                                        larvas de nada


         
               Max Martins



28 de jun de 2010


21 de jun de 2010


ODE

Os dedos contam as ondas,
os minutos talvez,
jamais o anelo
Podes marcar a face disfarçada
a barba,
os bens,
todos os sonhos,
mas escravos do real só te aceitamos
na tua farda de pêlos,
sangue,
e ossos.
Quando recrearás a trança libertária
o horizonte do mito,
o Deus negado,
a tela do perene e do intocável?
Quando libertarás a página e o relógio,
o ser distante que revel condenas
ás arestas da ruga e aos frutos sazonados?
Quando,
(desde olhar em diagonal ao espelho e à morte)
farás ruir ao peso de teu gládio
e ao sulco de teu grito
as taças do não ser,
o veneno da aurora,
as portas do visível
e do invisível?
O jamais seremos sós perante a Fonte,
jamais seremos nós e a ti mostramos
o sorriso de "clown" que se reparte
em contorções de esperma,
tédio,
e ódio.
Jamais conservaremos o perfume e a liturgia
e a hora que se esvai não justifica
este desabrochar em cálice e corola.
Não ser,
(embora seja no retrato)
não ter,
(para ao flagelo condenar-se)
não sentir o chamar do céu porque beleza
e memória de ausências povoada.
Estamos sós,
bem sei,
e como e noite
arrancas o teu mundo no arbitrário
e a poesia morde o que não é.
Quem te susteve o braço suicida:
a ode ou o catecismo?
Quem te ligou á sorte deste povo:
o sonho ou a promissória?
Quem te fez espalmar a mão como inocente
e a cabeça baixar como culpado?
Ó tempo
ó dimensão do exílio e da orfandade
e se não digo eterno,
quase eterno,
deixai toda esperança
"voi che entratte"

                            
                 Ruy Paranatinga Barata




A PEDRA


o miserável adormecido nos braços da estátua
4 leões lambendo a madrugada

 dilata-me as narinas o mal cheiro da Pedra
a baía fustiga barcos com a língua
me açoitam impulsos noturnos
aparto-me da alvorada
dobro o pescoço
abro asas negras devassas

 do alto avisto o mercado a igreja a praça

 puro pássaro – pouso a teu lado
cravo garras na poezia e seu cadáver
revolvo toda a carniça

perverso

daquelas entranhas extraio
verso
verso
verso

até ficar saciado

                              
                           Dand M

30 de mai de 2010


        Danielle Fonseca

23 de mai de 2010


A sombra da ausência


O corpo vai, a sombra fica.
Um eco sem voz que assombra

a sala, a mala sendo arrumada
para a viagem, que, dia-a-dia

se faz um pouco sem saber se
é volta ou ida – O copo quebra,

o sabor fica, a aura de um hálito
em torno à boca que se intensifica,

quando um conhecido fantasma
passa pelos terraços da memória

e evoca um nome, um aroma, uma
hora perdida entre as folhas secas

de um outono que se deteriora
conforme a mão do inverno o toca

O céu se ensombra, o azul fica.
Em alguma dobra das pálpebras

da íris, dos cílios, sua luz habita.


                Antônio Moura

15 de mai de 2010


CÉU


mênstruo tardio - o exílio vício,
adiando a vã cor de seu ar (lambereinando o
                                       escrito, o céu -
                                       o sádico céu
                                       ampliado no teu nome)
                                       dil
                       
                                                    latando

                                        o deserto viril do furo
                                        ao noturno soletrado,
embora
                                Seja raivoso apenas nele:
              
                       à sua exposição
                       ao serpentário.



        
          Wilson Sena


7 de mai de 2010



Eu era feliz dentro das palavras que me calavam.
Deparava-me com a diferença entre o sonho, que é infinito,
e os pequenos movimentos das pessoas adormecidas.

Eu era feliz como um dia é feliz, como a noite.
Meus pensamentos eram imagens felizes, às vezes significavam algo.
Eu tinha a liberdade de não existir.

Quando era feliz e livre, carregava comigo todas as possibilidades
como quando há espíritos vivendo em uma casa e, por causa das paredes,
eles não estão necessariamente mortos.

Porque minha vida era uma história que alguém soprava ao meu ouvido,
de repente o futuro tornou-se tão concreto quanto o que acontece neste exato momento.

É preciso paciência diante do momento único.
Eu não falo; ele não muda.


      Rosângela Darwich




2 de mai de 2010

¨
Soneto da Palavra Esquecida

Busco a palavra que serve neste verso
Não é amar, nem noite, nem esperança.
Nem o que lembre mar ou rio perdido
Lago, luar ou solitária dor.

É uma outra que me foge ainda
E que sentado aqui neste momento
Procuro em vão na noite adormecida
Enquanto no céu corre a lua cheia.

É uma palavra que encerra gestos
Interjeições de espanto e de surpresa
Mas que esqueci talvez há muito tempo

Significa desespero vão.
Arrependimento de amar causas partidas
De ser poeta nesta noite plena.

    
            Cauby Cruz
.

25 de abr de 2010


ENSAIO


A palavra não existe
Ela se fez (in)vento

O homem não existe
                 – blefe –
ele fez-se da pala da palavra

                 Homempalavra
                 palavra(H)omem
                 homemqu-as-ehomem
                 palavraquaselavra

O homem-hímem
é das pencas, de palavras:
         filho de larvas

o homem constrói/destr
           a palavra

A palavra,
                o que
                do homem?


      Paulo Nunes


16 de abr de 2010

   
       fragmento


nas pontas de teus dedos havia um fogo gelado
que se derramava na pele quente

não sei dizer se as montanhas ficaram para trás
do sono anêmico da sombra sem dono
                                     ou se meu abandono
transmutou-se em pássaro de asas mudas

tuas estrelas, contudo, só desaparecem
quando a noite fecha os olhos para dormir e

logo

em meio a poeira amarelada do poema ressurges
como um sol de bronze ou
                                           ro


    Paulo Vieira

9 de abr de 2010


SOLILÓQUIO


Tudo o que importa é ser maravilhoso.

A maravilha: o gesto da inocência.
E do aceno o milagre a renascença
de deslumbrados olhos infantil espaço
e primavera — o homem volta ao homem;
o inefável gera enfim o mal sublime
no coração deserto; e da terra doença
a rosa azul desponta e levanto-me rei.
— Eu mesmo sou o encantador do mundo!
Seres e estrelas brotam de meus lábios...
e morro deste belo sofrimento
de ser maravilhoso!

                              — Ah, quem pudesse
gritar à noite e ao tempo essas palavras
e partir pelo vento semeando versos
e terminando a criação da terra...


Mário Faustino

31 de mar de 2010


anjo cego da expiação
ele estava esperando
em silêncio esperando
entregava-se ao que criava
um livro sem título
o dorso amargo de uma fruta
em que se via o mastro
eriçadas palavras talvez sem rumo
provocadas a entrar na nave
                                        [no livro
não mais de ferro vestido
nem de eternos pergaminhos
                                        mas construído no ar
para a viagem do mito & o mistério dos horizontes
folhas de bizarra flor negra
expostas a uma tempestade que se multiplica na memória

propagada até a última noite
a um limiar interdito
                           o fim a fenda o nada
última voz seguida ainda de uma outra
o verbo dissolve todos os elos
                                         a estepe o verso a ravina
açoitados pelo vento
borboletas ziguezagueando no alto
                                                 tuas palavras aéreas
minúsculos demônios vermelhos
avançando crescendo
                             movendo-se
com a precisão dos planetas
                                       & depois
quebrando-se
                   perdidos & abismados fragmentos
emissários alados da morte


        Ney Ferraz Paiva,
              do livro "nave do nada", 2004

26 de mar de 2010



POEMA-CORPO

Não tricotei 
Meu corpo 
Nem fiei 
A golpes de fúria 
A queixa 
Que ele se queixa 

Por seus poros 
(ele diz) 
o mundo 
entra e sai 

no último inverno 
o tempo em chuva 
a escrita foi de água 
e a poesia 
só não naufragou
porque se atirou num bote 

desde então 
sôfrego 
após pisar 
num búzio 
meu corpo 
desliza 
numa pátina 

hecatombe


Jorge Andrade,
do livro "Em Memória da Chuva",
Prêmio IAP de Literatura - 2002