Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
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21 de fev. de 2010

Término e Crisálida

Mesmo que nossos lábios fossem silêncio e as palavras não fizessem mais a vez das mãos, ainda, assim, seríamos dois, uma possibilidade. Meu corpo se traduz texto. Teu corpo se traduz vida. Essa vontade incendiária em nossas peles. A tua presença, teu próprio texto escrito. A tua leitura, uma possibilidade minha. Eu, o narrador, a minha face irrevelável. Tuas mãos em meu corpo. Eu que existo em teus olhos. Tu és agora o que me reescreve, a agonia, o que me faz um filho. A tua leitura pelos lábios das letras. Eu, a falsa promessa, aquele que narra. O erro predestinado. Não se estar morto, vida, pura ficção. Uma pequena verdade.

Ser o narrador: em tuas mãos uma fala sem nome, a marca que se ressignifica de ti. Cria sons, odores e mágoas. Vários amores vencidos. Tua leitura, os lábios traçados em silêncio, insones destinos. Os olhos redivivos. Tu, o leitor. Treliças do arco-íris. Fugaz teu movimento de sobrancelhas, revelas uma nova cor. Íris, a tua leitura. Assim me dás alguma vida. O dizer das palavras.

Texto. A nossa conjunção carnal.
Derramas em mim teu próprio signo.
E de nossos corpos a água se faz transcrita.

Eu o que narra. Tu o que lê. Entrepalavras, entre vidas, um entremundos.
Natural o teu abandono. A despedida das tuas mãos. Os pedaços da tua pele em álibi. Aqui tu estiveste. Volto a mim. O erro predestinado. Agora, aqui, essa hora marcada do nosso desencontro. Ficaste tu, o que me aviva e apalavra o meu vazio.

o amanhã, a tua outra leitura. Vária essa minha face híbrida. De nós, a terceira língua. Fica essa verdade. Tua presença sempre me atrai. O texto que assim corpo se diz. Seduz. Sabes de mim as tuas imagens. Sei de ti as tuas mãos e alguns silêncios.

Uma marca, um só corpo feito de várias vidas. O fim exato como certeza.
Algum verbo de adeus.

As cinzas dos teus olhos. A rediviva pele. Uma outra vida além do ponto final. Tu que me deste a alma. Eu, tua voz invisível. Na próxima história uma página em branco. A justa homenagem ao silêncio das palavras, à vida ainda não escrita, uma possibilidade tua. Obrigado por teus olhos. Obrigado por tua boa vontade. Obrigado por nossas vidas se entrelaçarem por um instante. Aqui, nosso desencontro marcado. Meu término, tua crisálida. Nossas vidas, sempre, o maior poema.

Nasce, enfim, meu término.
Nasce, aqui, tua crisálida.
O mesmo parto. O mesmo porto.
A face grávida de um nome.
A palavra em pré-amar. O oceano de nossas vidas.
Tua leitura.
O texto que veio à luz.


Daniel da Rocha Leite,
do livro "INVISIBILIDADES"
Últimas Palavras de um Barco

Eu sou minha margem proibida. Nasci de um amor gapuia e minhas mãos líquidas me turvam a vista. Eu mesmo me adoeço. Meu ânimo se esvai, seca. Vivo verde-escuro, segredo água nessa face limo de minha proa. Marcas de toda pré-amar sangrada. Eu me venço nesses glóbulos de lodo silenciados. Faço-me vazante e me revelo junco.

Sempre fui porto nessas águas. Agora, aqui de barro e sangue, parto o que me é verdade e nunca quis. Algo de mim se entrega, mas reconheço que devo resistir. Reconhecer, verbo que exige distância. Olho pra mim fora do meu corpo, suspenso no espaço indivisível, a lâmina desse rio estrada. Meu madeiro está vazio. Alguém espera.

Não existo em mim agora, desengano-me nesse abraço, o sereno corpo de uma verdade exposta. Silhueta-me no meio de tantos outros eus que asfixiei em mim. Todos me calam e leio a palavra ágrafa. lnsinceridade.

O trapiche existe pra que eu queira voltar. Benigna água.

A tarde desvenda a lançante, como é úmido esse ar fêmeo. Vozes se encerram nas velas, falam dos corpos que vêm dar na praia. De várias marés se faz minha partida, ímpar, agora, essa corda que me desata. Água, uma possibilidade confidente. O norte é a cidade acima. À beira, o sal que me escorre do ventre. Recolho minha âncora incrustada de corais.

Ser o rio, a história das águas. Taumaturga vontade.

A foz, a crença em outra carne. Lanço-me água-viva.

O que me move está submerso e meu porão alaga um desespero quando se acusa cansado. Escrevo-me na letra desse rio, desosso-me e abro minhas veias barrentas. As águas se fazem força, me arrastam e se dizem caminho. Não. O sentido do rio também é dito no tempo das minhas mãos. Meu nome está inscrito nessa palavra água que busco. Palavra oculta que deságua meu nome em outras terras.

Eu, o corpo presente. Minha pele, a água desnuda.

O caminho nascido sobre as montanhas. De uma rocha congelada o veio da vida. A nascente. A vida que existe pra ser sofrida. Esse último instante que se faz todo saudades. Todos sabem, as águas cobrem as pedras. No cais do porto tu me dás adeus.


Daniel da Rocha Leite,
do livro “Águas Imaginárias”