Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
www.culturapara.art.br

26 de fev de 2010

POEMA INVISÍVEL


Eu ainda.
Ainda não estou aqui.
Ainda não cheguei.
              Tudo é irreal

Devagar tento juntar
              a cabeça ao corpo

Mas faz teu poema invisível
                              impossível

— Morcego cego preso
           no olho do texto
                             da aranha.

Escreve-o. Escreve e me alimenta


Max Martins,
   Do livro "Poemas Reunidos"

.

surto,

a noite
o arcabouço,
vértebras

        a linha tênue

                o verbo
                                          soa, ecoa,
                trinca

na árdua madrugada

                olhos
                             bocas
                                           narinas

                                           escapam-me


Vasco Cavalcante

OS GRANDES MESTRES


Há uma qualidade que os homens ignoram: viver é
menos
Queda que a pedra da memória
e mais do que as serpentes reconhecem: O odor humano
Está
entre as estrelas morrendo nos seus sonhos
e a terra fria afagada contra o peito
antes de lançar um sol sobre as suas vítimas
Se isso se parece um pouco com as residências do mal
e com casas perdidas em si mesmas,
foram os Cálices da espécie que deram à vida a nutrição e os tumultos
Eu falo da invenção da sede
Porque o homem é o animal de areia que dá sentido às fontes do real
e quanto a noite cai,
bebemos a água escura do ventre das mulheres

Mas vejam: o escorpião instalou as suas ferragens
O céu tem suas lágrimas em silêncio
O caracol da voz,
quando sussurra os enigmas da chuva,
sabe:
Quase nunca é tempo
Quase nunca é tempo
para o perfume do sangue
Quase nunca é tempo
de permanecer humano
Esses rios têm espelhos partidos, e tudo o que foi
submerso
é um caos perdido


Vicente Franz Cecim

25 de fev de 2010

ESCRITA


quem nos olha é só uma praia
quem nos ouve é só uma praia
qem nos é     é só uma praia

e a praia é um só ver desvendo
                                       verso deserto
o desouvido deus-ouvir                  o som negado

E somos só esta vã escrita
nosso riso-risco contra um espelho, praia
que nos inverte e desescreve
                                     dissolVENDO-NOS


Max Martins,
do livro "O Risco Subscrito"

24 de fev de 2010

 RASURAS


Meu nome é um rio
Meu nome é um rio que perdeu seu nome
                                                                         Um rio
nem sim
nem não
               Nenhum
                              Somenos correnteza
                              Água masturbada Em vaus
                                                                         peraus
                              em po
                                        luído orgasmo entre varizes
                              Sêmen sem mim
                                                          Mesmice
Onde está meu nome Lá neste rio de lama sem memória e
                                                                        rumo?
Neste amarfanhado leito de inchada falha?
Meu nome é um rio cotoco - um Ícone
                                                         De barro
                                                                  barroco
Um rio que só se-diz
                                      Seduz-se
                                                         Se afaga e afoga
em ego e água: Aquário
Meu nome é um rio tapado
                                       (poço)
                           E aqui se quebrantou meu nome
                                           sua viagem e osso
É esta a sua fissura? E o seu rosto é este
                                                              escuro
atrás da porta
                    espelho
exposto à febre
                         à fera de si mesmo?
                                                Ensimesmado
meu nome é um rio que não tem cura



Max Martins
   do livro "O Risco Subscrito"

MAX MARTINS: O ATO PURO DA LINGUAGEM


Como se efetiva o encontro com uma linguagem nova? De que forma ocorre a descoberta dessa linguagem, o momento fulminante que leva alguém a tocar uma expressão, despertando para a sua reverberação ininterrupta?
Tal movimento enigmático acontece, muitas vezes, quando o processo está em curso, ou continua ao longo da vida. É como se houvesse brechas que libertam uma luminosidade peculiar, leves indícios revelados num instante inexplicável.
Na verdade, sabe-se que nesse silêncio recatado algo paira sobre a efusão feroz, revolvido por uma combustão invisível que só o encontro com a palavra absoluta e autêntica poderia porventura explicar. Emily Dickinson dizia que reconhecia a poesia genuína quando sentia uma espécie de choque elétrico cruzar sua espinha dorsal. Max produz esse efeito, hoje em dia raro.
Suponho que a “solidão essencial” defendida por Maurice Blanchot é uma via de iluminação que acaba por caucionar tais fatos que nos levam ao encontro de uma poesia.
Max deve ter vislumbrado isso tudo.
Em São Brás, na cabana do Marahu, observando uma lápide no cemitério da Soledade, deambulando pela cidade ou rasurando uma palavra no poema escrito.
No início dos anos 80, em Belém, a circulação da poesia que aqui se produzia era precária; pautava-se pela ausência real. Curiosamente, essa produção secreta continuava pulsando naquele que pertencera a uma das gerações mais criativas surgidas no Pará. Max Martins era um destes criadores que herdara toda uma tradição. Soubera filtrar e renovar toda essa herança intelectual e literária, fortalecendo sua base com a riqueza imagética, rítmica de sua própria poesia. Creio que isso dificilmente se repetirá.
Sua dedicação à poesia superou cronologias, estilos, modismos, sem jamais se acomodar em sua expressividade. Ele escrevia para além de si, projetando sua ressonância para além do tempo estipulado, como todo grande poeta é capaz de fazer.
Conheci-o quando trabalhava na SUCAM. Recordo-me ainda a noite em que autografou meu exemplar de Caminho de Marahu, e em seguida dispus sobre a mesa as primeiras edições de O Estranho, H’Era, O ovo Filosófico, O Risco subscrito, e o sorriso tácito que se abriu em seu rosto.
As visitas vespertinas à SUCAM tornaram-se regulares, e as conversas nos encontros fortuitos pelo bar do Parque, ou quando o encontrava por essa Belém arcana, úmida e noturna, furando túneis de mangueiras entre madrugadas etílicas.
Meu destino parecia estar traçado – descobrimos depois como voltamos sempre ao início – e a cidade transformou-se num lugar “aonde se ir”, mas não estar, nem viver.
Tinha a certeza que, apesar da distância aumentando cada vez mais, a poesia do Max continuava a reverberar em mim, à revelia da deriva que me levara para outras geografias. “Saltamos e pulamos, como sapos”, diz um verso bizarro e longínquo de Pessoa.
Mais de quinze anos na Europa consolidaram minha convicção de que o Max conquistara seu lugar de direito como um dos poetas mais genuínos do Brasil, embora o desconhecimento sobre sua obra avançasse impiedoso.
Viver em Belém jamais diminuiu a vitalidade da sua poesia, só entrincheirou-a num isolamento injusto. A sua obra aguarda ainda o reconhecimento urgente. Sua vida na cidade reforçou ainda mais sua originalidade, e o adensamento dessa voz que atravessou sucessivos surtos criativos, demonstrando como os pormenores geográficos não domam a criatividade e o gênio de um poeta. Ele cria seu tempo e as suas fronteiras.
Max dominava sua voz e sua expressão como poucos. O seu diapasão poético é suscetível de se identificar logo à partida. Soube – e utilizo aqui uma imagem derradeira de “Problem der Lyrik” do poeta alemão Gottfried Benn – apanhar a lança e jogá-la para frente, para que outro poeta a descobrisse e desse continuidade a essa corrente de renovação necessária.
Ele atravessou décadas criando, explorando, exprimindo-se. A tensão de sua poesia manteve-se intacta, nova e verdadeira.
Se observarmos a poesia feita por autores brasileiros próximos da sua geração – Ferreira Gullar ou Manoel de Barros, p. ex. – ver-se-á como permaneceu fiel a si mesmo, escavando sua linguagem poética densamente sensual, pródiga, contemporânea.
Quando pensamos nos poetas que continuam a produzir pelo mundo – Bonnefoy, na França; Geoffrey Hill, na Inglaterra; Carlo Edmundo Ory, na Espanha, Herberto Helder, em Portugal ou Andréa Zanzotto, na Itália – vê-se como a poesia do Max perfila-se com toda justiça ao lado destes poetas.
Mas agora o Max mudou-se, como sempre fez em sua poesia. Cabe aos jovens lerem a sua obra. Descobrirem seu fascínio visceral. Tocarem na pele dessa poesia vertiginosa, entregar-se à ascese que cada poema dele nos oferta. Max nunca perdeu o seu ponto cardeal, nunca desvirtuou sua poesia, mergulhou fundo na exploração e na experiência da linguagem.
Um poeta estabelece seus limites, ou supera-os, reconstruindo-se sempre. Essa forma fecunda de encarar a linguagem – “ a fera nos lambendo” -, olhando-a nos olhos, é um dos modos mais eficazes para efetuar a aferição do ponto exato em que um poeta chegou. Max Martins é uma floresta poética pronta para ser descoberta. Cabe a nós que o lemos há muito tempo – com entrega e devoção amigas – apontar aos que estão por vir a grandiosidade dessa poesia. O que ela nos mostrou e mostrará continuamente como ato puro de vida e linguagem.



Jorge Henrique Bastos


TUTU AINDA
enfronhada na luta
entre leito ser campo
de sono ou sexo
(treva seminada
      entre
      entrar-se
ou ser entrada),
se és
refletida
essa pergunta, uma resposta —
aceitas a espera
e a sombra
da espera.

(Eu, ainda desoutro de mim,
todo, dobrado
centauro centrado num trono
de águas,
              ergo —
playtime! — o centerfolder aberto
diante do corpo fechado
em obras
             (menos barro,
             mais espírito
             agora) e já
outro, semi-nada de mim,
vice-touro na sombra, donde falo:
“Destro de mão ou pata, por ti
brando suave
a espada”)

Age de Carvalho
do livro “Caveira 41”, Cosac & Naify, 2003

22 de fev de 2010

SILENTE

Pra Josse , verbo e cosmogonia


Palavras engordam ou emagrecem a vida porque são.
Palavras.
Nem cor nem cheiro nem sabor: fonemassílabas porque palavras.

Palavra, essa alardia, essa lavra, essa prava,
essa vala-comum que silencia mas repete:
gritographopherida em silêncio:
Psssiiiiuu!

Quero o ressurgir da vida
vez que
palavra é ereto pênis e vulvaouvido recebendo,
pneumassêmen partindo o desespero,
é filho colando-se à boca do útero teu.

Isto é palavra.
E fiat lux!



Paulo Nunes
A vocês,

          de coração,

lego o jogo
da concórdia
entre irmãos que são —
longe de mim,
libertos então
de mim.

(Beijo a imagem:
verão, vocês
descendo a Gärtnergasse
em senso único,
pisando o chão do mesmo sangue,
manos, mãos
dadas).

Dobrada a esquina,
mundo-rei, chegam
notícias do front: eles
a postos,
cada um
latindo a sua missa,
a boca cheia
de Deus.


Age de Carvalho,
     
Do livro "Trans" (inédito), 2010
COMO ILHA, PARA ÁGUA


me dás de vestir.
como água mal acomodada pelas arestas de tuas
fincadas impossibilidades, eu escapo para um lugar
ao longe. e és tu, terra frutífera, bendito chão, que
me segues. te manténs irrigado em sumos
desapossados de mim
como memória de desmanches insulares para a
tua superfície áspera
despachas partículas de terra e hábito à minha
campanha, teu amor e hábito é que me seguem.
moves uma ilha sob os meus passeios, constante
que é o teu amor ou costume no meu toque
essencial. tuas amadas partículas, que me ceguem.


Élida Lima

O LUGAR


Há um lugar mágico, pouco visitado
Para onde esqueço o caminho
Não há sofrer,
Apenas se imprescindível a vontade
Lá, pesco sonhos perdidos no tempo
E me diluo no vazamento dos dias,
Na menstruação dos calendários
Empoeirados lençóis de virgindade
Enlameados de lágrimas
No choro indolor das lembranças
Do que não fomos
Corro com o vento
E sonho.


William Silva

VINHO DO ENCONTRO


Por sua chegada com o acontecimento
dos repousos

Das regiões selvagens
Por sua chegada
Por sua vinda ao Encontro

daquele que na sombra treme de prazer

sua chegada de lodo
e sua chegada de fonte

que ali é
espera e guarda à residência


Vicente Franz Cecim,
do livro “Música do Sangue das Estrelas”,

Primeiro de Maio


“Ao contrário dos anos anteriores, este
ano teremos um primeiro de maio tranqüilo
e sem agitações, já que os subversivos de
nossa pacata cidade, entre eles Ruy Barata,
Raimundo Jinkings, Benedicto Monteiro,
João Luiz Araújo, Humberto Lepes,
Jocelyn Brasil, Sandoval Barbosa e Sá Pereira,
estão presos ou foragidos".
(Dos jornais)


Surja esse verso de maio,
trazido pelos arcanos,
um verso que faça maio,
o maio dos desenganos,
e fel transforme em doçura,
e rendilhando de ternura.
os meus fracassos humanos.

Um verso que me decifre,
nas horas de ansiedade,
que não sendo antologia,
seja a minha humanidade,
levando por onde for,
os meus suspiros de amor
e gritos de liberdade.

Um verso assim como esse:
"Proletários de todo o mundo, (uni-vos").

(Quartel da Companhia de Guardas
da Policia Militar do Estado do Pará, 1º de maio de 1964).



Ruy Barata,

ARTE POÉTICA


Ah, o ofício,
as contorções da espera
entre a noite e a madrugada!
O litúrgico olhar abre cortinas,
o anjo adormeceu,
dança arbitrária
a minha barba de duzentos anos.
Quem poderá restituir-me intacto ao mistério
com o perfume de rosa não tocada?
Quem senão tu,
cântaro e fonte,
abrigo,
terra e pátria onde se esconde
a negra cicatriz que o peito ostenta?
Eis porque espero
(entre a noite e a madrugada)
para que salves
ou lances no infortúnio
o litúrgico olhar que em nova busca
apodrece sob um sol de desespero.


Ruy Paranatinga Barata,
do livro “Anjo dos Abismos”

¨
Ouvia o canto de um rouxinol por entre as casas
quando alguém perguntou se somos espécies grandes de pássaros.
Não, eu disse, rindo onde hoje não mais riria,
pássaro que sou, pesado de saudade.

Envelheci enquanto olhava os telhados do que sei agora.
Som que se mantém através das aves,
o passado é um espelho sem asas como eu,
parede coberta com a imagem da parede oposta.

______________________________


Outras coisas que conheço e que fazem parte do que me pertence
são também como o tempo
porque o tempo desfila vôos de vários pássaros defronte de olhos cansados
e nos amanhece intacto.

Assim como o tempo se quebra em vários pedaços
e desfila asas de vários pássaros em movimento,
que nem tudo nos guarda.
O tempo, ele próprio, nos fecha as asas,
aquece as penas do ventre.

Longe das cascas das árvores, dos galhos altos das árvores,
de quando ainda se pensava vir algum poder de anjos
e fazer, de cada um de nós, anjos pelos ares.


Rosângela Darwich

haute couture


chegou por demais atrasada. a barra da saia desfiava!
com um estojo de manicure, ela ensaiava alinhavos.
cada prega da saia colegial a despudorava, o homem de
bigode à village people perdeu-se numa das pregas. o
gênio da lâmpada acarpetou-se em outra. o estiva proto
bem antes já erguia contrabandos por uma preguinha
que fosse. até o apátrida teve seu quinhão... o velho da
horta lambia os beiços. o argonauta afogava as anáguas.

foram as mulheres, no entanto, que, depois do amor,
teciam a barra, passavam a goma e vincavam as dobras.



Rodrigo Maroja Barata

¨
repara o fogo oculto no corpo da palavra.
por vezes somente a surda fagulha das línguas mortas,
a primitiva clava do verbo fendendo o gutural e pálido signo.
deixa que esse fogo seja, de fato, o ígneo feto de tua fala,
singular e claro objeto que, aos solavancos, resvala
no féretro lento que te serve de discurso.
deixa que o sopro deste movimento dê curso
ao incêndio, e cinge tua língua na fuligem
da retórica & da lógica carbonizadas!
deixa assim que, ao perigo do que está prestes a ser dito,
junte-se o desejo contrito de não dizer nada.

deixa, enfim, ao teu aflito interlocutor
o labor e o risco de compreender
ou teu silêncio, ou tuas palavras.


Renato Torres,
Revista Polichinello, nº 5

TESA


Me aninhei na sombra do teu corpo
– eterna carícia vegetal –
Estavas tesa e luminosa, talvez verde,
Os braços bem abertos
(como pássaros revoando para o nada)
De teus pés raízes jorravam para os rios do mundo.
Ressonavas trágica e suave, árvore

Reivaldo Vinas,
Do livro “Poesias: Coletiva

Naufrágio Íntimo


a solidão é tátil:
título de um livro
que se inscreve
em tempo
& ausência

esmorecer
de uma espera:
íntimo naufrágio

a solidão dispensa
metáforas ou
soluções de estilo

sua língua é
o estilete
sua página
a pele


Pedro Vianna

o vento inda soletra um nome


assombra-me a casa sobre o sal.
acaso moras aqui comigo?
teu seio/sol enfrente o mar remoto.
enfrentas maremotos e
espumosa te desdobras
em itinerário para peixes.
o vento inda soletra um nome
enquanto a lança me rasga
as águas e arde e some
a velha águia não se cansa e
na planura revê penas e perdas.
EU repouso ossos de areia
em negros túmulos de pedra
sem alarde, em mim TUdo arde.


Paulo Vieira,
do livro “Orquídeas Anarquistas”,


trama

deves tramar o poema
enquanto há sereno
e teu relógio líquido
se derrama
nas ramagens da campânula
deves ouvir os passos
saber a imagem
da mulher te seguindo
(seus braços de treva
erguendo a foice minguante
sobre tua cabeça)
deves sentir o sangue
derramado ao pé do cipreste
deves tramar o poema
&
nadar
(contracorrente)
enquanto o coração não entende
as rodas dágua atropelando peixes
no marnoturno
deves tomar de minhas mãos
este cálice devastado
e na fronteira
entre
o meu e o teu
país
deves erguer
uma fogueira



Paulo Vieira,
do livro “Orquídeas Anarquistas”

Ode a Minha Alegria


De ti que poderei fazer se me dominas
como a viagem ao viajante
e os ventos do mar aos pássaros que voam?
De um território vens, profundo e largo,
em ti caminham vozes
que outras vozes acordam, em ti caminham dores
há muito apaziguadas.
Em ti passam corcéis de fogo
que sobre a pele deixam a marca do silêncio,
em ti flutuam sonhos.
De onde vens, para onde vais quando me tocas
com a ponta dos teus dedos?


Paulo Plínio Abreu (1921-1959)

Estranha Mensagem


Ela veio nas trevas quando havia silêncio
e de novo trouxe a ternura dos galhos tombando para a madrugada.
Eu subi do fundo do mar como um líquen liberto
para ouvir a sua voz que era imensa
e trazia a ansiedade das flores explodindo,
mas só vi o silêncio, enorme como a noite.
E ela chorou dentro da minha tristeza
Porque era como a revelação do que eu havia perdido.
Ainda trazia nas mãos o frio dos troncos úmidos da noite,
e nos olhos a humildade da terra encharcada de chuva.

Um dia eu descerei verticalmente a para sempre
ao fundo deste mar onde ela mora
como um barco de pescadores desaparecidos.


Paulo Plínio Abreu (1921-1959)
Elegia


Por que de estranhas terras eu te acompanho lua solitária
E durmo ouvindo os teus passos de anjo pela noite
Quando os velhos desejos desaparecidos voltam à flor das ondas
E a noite do exílio levanta as suas árvores de sonho,
De um tempo imemorial eu acompanho as tuas viagens,
Tu que vestes os mortos com o que cai do coração dos vivos
Eu te acompanho pelo céu escuro
Sentindo como tua a vertigem da morte que anuncias.
Tu que de um tempo longo ergues teus olhos sobre o tempo
E apenas náufragos aportam a esse país estranho em que tu vives.
Ouço tua voz cair no mar da madrugada
Para que o céu se deite sobre ti como um sepulcro
E as estrelas brilhem nesta noite escura como incêndios.


Paulo Plínio Abreu(1921-1959)
POLICHINELO


O seu segredo era como o dos outros.
Seus olhos eram de vidro azul
e na boca vermelha
o riso da ironia.
O humor profundo, amargo e doloroso
vinha de sua boca;
o riso da sabedoria
e do desespero
gritava da sua boca aberta em sangue.
O riso do polichinelo
vinha do coração ausente, era uma advertência.
Era apenas o riso
e falava de um mundo
maior que sua alma.


Paulo Plínio Abreu,
Nasceu em 1921 e faleceu prematuramente em 1959.
Não publicou nenhum livro em vida, só alguns poemas em
jornais em Belém do Pará, sua terra natal. Deixou inúmeras
traduções de autores famosos como Rainer M. Rilke e T.S.Eliot.
G:


Já faz tempo,
amada,
que navegamos aos becos do sol.
Neles não hasteávamos flâmulas
não se mostravam bússolas
e nem existíamos,
havíamos.

o sonho dos arcanjos e
o beijo dos namorados
viam Teseu nos labirintos do som.

Mas o que fazer se Clio é infeliz?
O que dizer das linhas
- vias ­-
que se plantam às mãos?

O meu-teu luar via vícios de violinos

Amar é verbo,
gerúndio passivo
de infinitivos atos

Por isso,
Ariadna,
acasalamos nossas bocas,
o laço que o ímã atrai,
nos labirintos do sol.

Paulo Nunes,
do livro “Ou: poemas não são linguagens”
¨
Quando chegares ao aeroporto,
ainda não terás chegado;
quando chegares até meu abraço
- meu abraço -
ainda não terás chegado;
quando chegares a nossa casa
- a nossa casa -
ainda não terás chegado;
quando chegares até meu leito,
até meu leito - até meu leito -
ainda não terás chegado;
quando chegares até o centro,
até o centro de meu ser,
ainda não terás chegado,
ainda não terás chegado.

Mas quando fores para teu leito
- teu leito -
mas quando a sós adormeceres
- adormeceres -
e quando tudo estiver escuro
- tudo escuro -
quando eu, de pé, ao pé de teu sono,
sentir teu sono, teu sono justo -
aí então terás chegado,
terás chegado
aí, Amor, terás chegado.


Mário Faustino (1930-1962),
“Esparsos e Inéditos”,
VIDA TODA LINGUAGEM


Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre,
talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem –
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do nverno,
/ contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.


Mário Faustino (1930-1962)

21 de fev de 2010

NA VIGÍLIA QUE ENGENDRO NESSAS FOLHAS


Faz tanto tempo, faz um século, faz sol, faz um verão. Na vigília
que engendro nessas folhas há galerias subterrâneas e encontro
a cada passo um sonhador que acredita na saída desse túnel.
Fantasmas do meu quarto, sombras que todas as noites assistem
ao acender das estrelas desse túnel. Cárcere dourado onde prendi
meus dentes, a língua estranha e até mesmo um transatlântico de
papel. Lições de continentes, luz desvelada entre musgos de um
minúsculo jardim, folhas feito céu por sobre a minha cabeça.

E este furor que me impele para as Índias sem soltar a âncora que
me prende os pés à casa. Fantástico navegar por entre manguei-
ras neste verão que só eu vejo anunciado por luas tão perfeitas.
Mas não tenho cântaro e o caminho da fonte está perdido. Sobram
as asas que não se abrem nessa queda.



Maria Lúcia Medeiros,
do livro “Quarto de Hora, 1994
HISTÓRIA E PERSONAGEM


Outra noite e uma esfera azulada cintila à minha frente.
Impossível é ver daqui onde me encontro o contorno dos
bálticos países, nem mares, nem as pequenas ilhas Falkland.

Meus óculos descansam num livro aberto ao meu lado. Talvez
eles tornassem mais nítido algum promontório e eu pudesse
distinguir a faixa de terra apontando para um farol incrustado
em pedras semipreciosas.

Obrigo-me daqui deste lugar onde recosto corpo e memória a
ver com nitidez um oceano que não preciso nomear a fustigar
de espuma as minhas costas, a dividir-me, a separar-nos,
espaço que eu inauguro nesta noite para que meu escaler com
marujos arrojados possa fazer a travessia e me levar.

Nesse espaço a memória inscreve, pela ausência, história e
personagem, a passagem nossa, nossa ida e nossa vinda,
trajeto e rota que vai do lugar de sombra deste quarto à esfera
azulada e mítica de onde deito olhar de dor para narrar-te.


Maria Lúcia Medeiros,
do livro “Quarto de Hora,
BAIXO-RIO

Os caminhos da minha terra são
líquidos e correm.
Caminhos líquidos levam-me a ti.
Sempre me conduzem à tua presença,
longínqua como um horizonte.

As noites são teias de redes
que se acasalam na marola,
que se amam nas ondas da baía.
As redes das naves do norte
entrelaçam-se nos silêncios das viagens.

São sempre no teu rumo as minhas sendas,
nas águas-lendas desses rios.

No baixo-rio da minha história,
entrevejo o calor da travessia:

o remo ama a água sem ruído e
eu escorro líquida à procura
deste remo que me espera,
que viaja em mim na noite escura...


Lilia Silvestre Chaves,
do livro “E todas as orquestras acenderam a lua”,
SOU O MUNDO

Sou o mundo.
O possível é o horizonte...
Criaturas do mar dormem
balançando-se nas ondas.
Ressoam as vagas na concha do tempo.
Vem.
A promessa pousa
suas asas entre nós.
Navega.
A certeza é o poente.


Lilia Silvestre Chaves,
do livro “E todas as orquestras acenderam a lua”,
Péssimo dia para o minério


Profecias velam o Nome do feto
Em muitas ninhadas e não vem.
Delas, um som impreciso te anuncia
E por isso te recebo, de carne, osso
Para ser o Nome que espero

Uma parca cabala
Cabeças decepadas
Tótens para vertigem

Teu livro retorna para a margem
Vidro e areia aprisionam o tempo
E ele é branco como a praia
Como ter uma folha seca de outono
Dentro deste livro em branco
As marcas d’água são cicatrizes
E contam histórias-mudas
Na escuta dos morcegos
Na irritação das ostras: A pérola

Que não sejas todos os nomes
Como estas roupas de passeio
Nem nomes para lembrar o caminho de volta
Para a casa aonde cresci por fora
Como um móvel oco em que os sons
Flácidos não te encontram: A porta.
Como nos péssimos dias para o minério
E o intento de, com olhos fechados,
Deitar mãos para reconhecer um estranho
Não como a fronte de um anfíbio morto
Mas o nascer para o estranho
E fazer nascer o estranho para si

Passagem branca e dourada
Apenas na sua costa; a luz

Este feto cujo Nome não vem
É como o frio que aprisionada até mesmo a morte
Queimando a sua própria maneira
Como o Silêncio, que é o mimetismo
de um bicho transparente
Como o Silêncio, que é uma palavra de loucos.


Karina Jucá
OS 5 FELIZES


Abrir janela, fechar janela, dar de cara com o mesmo lugar sempre, cadeia rochosa. Correndo riscos nos ruídos e silêncios, quintais varridos, separados da rua, esses oásis tranquilizam. olhares embaçados do ranzinza código das cidades grandes.

Nossas vidas anseiam por renascer noutra humanidade, entre casas organizadas, panelas limpas, algumas gramíneas e flores limpas de fumaça e pó vermelho, e outros seres que ainda valorizam a poética da vida.

Há música nas horas expressivas, poema algum deixado ao vento serviria para deixar o mundo vil com doces promessas de prazer.

Nesses campos ocupados de fumaça o homem vive, ainda faz seu pão, cultiva seu perfil e filtra o perfume rarefeito do aroma que escolheu. Com os sentidos todos abertos, não há mais nada a perceber do que objetivamente se instala.

O personagem deste texto trabalha num projeto de vida feliz que considera original, por crer que ainda existam espaços livres nos quarteirões de todas as cidades em que a humanidade habita e tenta compor com maestria, habitações dignas em que se apresentem com naturalidade: casas brancas, limpas, compotas em suas janelas de correr, uma casinha de cachorro, uma tabuleta indicando o guardador de correspondências, modelo de razão (inanimado e americano do que se vê parcialmente nos filmes da Broadway), o verde das ramagens, íngremes passagens para as formigas crescerem, sombras que se expandam ao número certo de umidade e a humanidade em peso poderá ser mais leve ao observar seus detalhes e sem pressa vir a servir-se dessa ínfima aparência, e tentar guardar como protótipo de feliz cidade ou apartamentos, reunidos e compartilhados por uma comunidade em que sua renda possa ser inferior, mas que a traduza em força para lhe ser destinado um conforto coerente.

As ruas ainda são desconfortáveis e embaralhadas, cobertas de mais de milhões de odores diferenciados, causando confusão e improvisação, dentro da improvável, mas real sobrevivência humana.

Ser feliz virou uma ideia infectada, um pouco se compra das expectativas da propaganda de mídia televisiva, o outro pouco se multiplica nas ruas através de desordens e ordens, a fantasia dos cartazes, a fome do outdoor, o pregão feito nas portas dos cinemas velhos, o outro pouco se marginaliza, entre a própria miséria do sentir, não tendo nada, não pretendendo comprar nada, e as abstenções, e o outro pouco a simplicidade, o que busca o personagem principal. ( continua )


Josette Lassance,
do livro de contos “Os Cinco Felizes”,
SAUDADE


hoje
acordei assim
essa saudade
minha
hoje acordei
e não havia aromas a tecer
o jasmim
vencido
trazia seu esqueleto seco
e essa fumaça
de carros
chaminés
de usinas velhas
invadiu a cortina
de ferro da cidade
essa feroz turbina
do dia
não trouxe
nenhuma
canção
hoje acordei
com uma saudade única
mas não queria
crer
que pudesse
ser uma saudade
anêmica
de beijar
o panô do tempo
e
ver o teu rosto puído
roto como um um degrau da vida
tantos caminhos
me deixaram assim
acordar com saudades
e ser a poesia do dia
hoje acordei assim
e não deveria
por honra
das horas por honra de mim mesma
não deveria
ter saudades.

Josette Lassance
MÚSICA DE PÁSSAROS

Ter surpresas como jasmins
no vaso sobre a mesa coberta
por uma toalha xadrez
seria como acordar entre
margaridas brancas
e dormir sobre
violões antigos
vendo da janela lírica
que o amor bateu na porta
e nunca seria tarde
ouvir música de pássaros
sobre as tábuas surradas
da varanda
onde o cheiro de café
e pão caseiro
sairiam da cozinha
como bálsamos
e alimentariam o resto de nossas
vidas.


Josette Lassance,
do livro “Galeria dos Maus”,
AUSÊNCIA E MERGULHO



De repente
estancava a sangria desenfreada.

Veias e nervos
desabrochavam em seus lugares.

Meia ave pousava
em meu sangue
e eu resistia a todo custo.

Barranco e calabouço
anularam minha euforia
para que eu testemunhasse
contra meu agridoce aborrecimento
e minha ternura desfalecida.

De repente
eu vinha à tona
e retornava inseguro
para os labirintos profundos.



José Maria de Vilar Ferreira
Do livro “O Arco e a Flecha” (2006)
(Mandesltam)


Hipno guarda a criança
envolta pela música,
alheia às catástrofes;
o homem traslada-se
para fora do tempo
com a mensagem lida
no tronco da amendoeira
que nunca vergou.

O muro ruiu
sob o brilho de estrelas frias,
sobre paixões demolidas,
desencanto e dúvida.
Perante o que foi, é e será.

Mas tu

permaneces.

O sol negro couraça
as palavras que erguem
uma muralha contra a dor.

Um ícone decora as ruínas,
as esquinas sonâmbulas
do outro mundo.

Para que o testemunho
possa chegar ao seu destino
agasalha na ânfora
a palavra estrangulada pela neve,
arrasta o exílio
no ponto
negro.

Fala
para que não esqueçam,
a terra invoca suas metáforas
– será mesmo assim? – .

O silêncio possui aos poucos
o sono dos homens
irremissível.


Jorge Henrique Bastos
¨
Quantas letras me faltam
para te escrever?

As ondas do rio da linguagem
entram pela página

O murmúrio distante do seu movimento
de terror, sede
e escuridão.

Minhas letras não encontram a palavra
para te escrever, ser escrito.

A gramática do rio
desemboca na foz do silêncio
a gotejar sobre mim
como uma gota enorme, plena
toda feita de palavras mudas.




Jorge Henrique Bastos,
do livro “A Idade do Sol”
MAX MARTINS: O ATO PURO DA LINGUAGEM


Como se efetiva o encontro com uma linguagem nova? De que forma ocorre a descoberta dessa linguagem, o momento fulminante que leva alguém a tocar uma expressão, despertando para a sua reverberação ininterrupta?

Tal movimento enigmático acontece, muitas vezes, quando o processo está em curso, ou continua ao longo da vida. É como se houvesse brechas que libertam uma luminosidade peculiar, leves indícios revelados num instante inexplicável.

Na verdade, sabe-se que nesse silêncio recatado algo paira sobre a efusão feroz, revolvido por uma combustão invisível que só o encontro com a palavra absoluta e autêntica poderia porventura explicar. Emily Dickinson dizia que reconhecia a poesia genuína quando sentia uma espécie de choque elétrico cruzar sua espinha dorsal. Max produz esse efeito, hoje em dia raro.

Suponho que a “solidão essencial” defendida por Maurice Blanchot é uma via de iluminação que acaba por caucionar tais fatos que nos levam ao encontro de uma poesia.

Max deve ter vislumbrado isso tudo.

Em São Brás, na cabana do Marahu, observando uma lápide no cemitério da Soledade, deambulando pela cidade ou rasurando uma palavra no poema escrito.

No início dos anos 80, em Belém, a circulação da poesia que aqui se produzia era precária; pautava-se pela ausência real. Curiosamente, essa produção secreta continuava pulsando naquele que pertencera a uma das gerações mais criativas surgidas no Pará. Max Martins era um destes criadores que herdara toda uma tradição.
Soubera filtrar e renovar toda essa herança intelectual e literária, fortalecendo sua base com a riqueza imagética, rítmica de sua própria poesia. Creio que isso dificilmente se repetirá.

Sua dedicação à poesia superou cronologias, estilos, modismos, sem jamais se acomodar em sua expressividade. Ele escrevia para além de si, projetando sua ressonância para além do tempo estipulado, como todo grande poeta é capaz de fazer.

Conheci-o quando trabalhava na SUCAM. Recordo-me ainda a noite em que autografou meu exemplar de Caminho de Marahu, e em seguida dispus sobre a mesa as primeiras edições de O Estranho, H’Era, O ovo Filosófico, O Risco subscrito, e o sorriso tácito que se abriu em seu rosto.

As visitas vespertinas à SUCAM tornaram-se regulares, e as conversas nos encontros fortuitos pelo bar do Parque, ou quando o encontrava por essa Belém arcana, úmida e noturna, furando túneis de mangueiras entre madrugadas etílicas.

Meu destino parecia estar traçado – descobrimos depois como voltamos sempre ao início – e a cidade transformou-se num lugar “aonde se ir”, mas não estar, nem viver.

Tinha a certeza que, apesar da distância aumentando cada vez mais, a poesia do Max continuava a reverberar em mim, à revelia da deriva que me levara para outras geografias. “Saltamos e pulamos, como sapos”, diz um verso bizarro e longínquo de Pessoa.

Mais de quinze anos na Europa consolidaram minha convicção de que o Max conquistara seu lugar de direito como um dos poetas mais genuínos do Brasil, embora o desconhecimento sobre sua obra avançasse impiedoso.

Viver em Belém jamais diminuiu a vitalidade da sua poesia, só entrincheirou-a num isolamento injusto. A sua obra aguarda ainda o reconhecimento urgente. Sua vida na cidade reforçou ainda mais sua originalidade, e o adensamento dessa voz que atravessou sucessivos surtos criativos, demonstrando como os pormenores geográficos não domam a criatividade e o gênio de um poeta. Ele cria seu tempo e as suas fronteiras.

Max dominava sua voz e sua expressão como poucos. O seu diapasão poético é suscetível de se identificar logo à partida. Soube – e utilizo aqui uma imagem derradeira de “Problem der Lyrik” do poeta alemão Gottfried Benn – apanhar a lança e jogá-la para frente, para que outro poeta a descobrisse e desse continuidade a essa corrente de renovação necessária.

Ele atravessou décadas criando, explorando, exprimindo-se. A tensão de sua poesia manteve-se intacta, nova e verdadeira.

Se observarmos a poesia feita por autores brasileiros próximos da sua geração – Ferreira Gullar ou Manoel de Barros, p. ex. – ver-se-á como permaneceu fiel a si mesmo, escavando sua linguagem poética densamente sensual, pródiga, contemporânea.
Quando pensamos nos poetas que continuam a produzir pelo mundo – Bonnefoy, na França; Geoffrey Hill, na Inglaterra; Carlo Edmundo Ory, na Espanha, Herberto Helder, em Portugal ou Andréa Zanzotto, na Itália – vê-se como a poesia do Max perfila-se com toda justiça ao lado destes poetas.

Mas agora o Max mudou-se, como sempre fez em sua poesia. Cabe aos jovens lerem a sua obra. Descobrirem seu fascínio visceral. Tocarem na pele dessa poesia vertiginosa, entregar-se à ascese que cada poema dele nos oferta. Max nunca perdeu o seu ponto cardeal, nunca desvirtuou sua poesia, mergulhou fundo na exploração e na experiência da linguagem.

Um poeta estabelece seus limites, ou supera-os, reconstruindo-se sempre. Essa forma fecunda de encarar a linguagem – “ a fera nos lambendo” -, olhando-a nos olhos, é um dos modos mais eficazes para efetuar a aferição do ponto exato em que um poeta chegou. Max Martins é uma floresta poética pronta para ser descoberta. Cabe a nós que o lemos há muito tempo – com entrega e devoção amigas – apontar aos que estão por vir a grandiosidade dessa poesia. O que ela nos mostrou e mostrará continuamente como ato puro de vida e linguagem.



Jorge Henrique Bastos
Acácio de Capadócia

Transmutação dos elementos passagens.
Alterações de estado, estações do espírito.
Mudanças do corpo. Metamorfoses da carne.
Fênix da matéria.

A idade da Terra. Pedra filosofal.
Celebrações alquímicas: “Operações de feitiçaria”
(como Argan resumiu Picasso).
Mantas imantadas de mágica multiplicam-se
tantas: mantras, tantras...
Transcendências.

Lava incandescente vertendo do vulcão do mago: magma
Cadinho/caldeirão: fundição, fusão, fissão, liquefação.
Metais, minerais, motores, corações e mentes mutantes.
Solidificação, combustão, evaporação. Sublimação.
Moto-continuo. Moto-perpétuo.

Estados d’alma. Substâncias instáveis.
Instâncias voláteis. Instalações no vácuo.
Campos magnéticos. Poeira-pigmento interestrelar. Pinturas de plasma.
Despojos cartesianos. Descartes: “O Tirador de Espinho”.
Descurtumes: couro de cobra,
descobrindo-se, desdobrando-se, descarnando-se.
Obra engolindo cobra, apropriando-se do espaço,
apoderando-se do tempo.
Coral descolorida. Cascavel desvelada. La Naja Desnuda.

Multiprocessador da matéria. Translações de tempo e espaço.
Buracos-negros engolindo luz,
aspirando nosso frágil pó para outras dimensões.
Tempestades solares cozinhando a cera: Encáustica Cósmica.

Matéria esotérica. Etérea.
Maetérea.
Mater Matéria.

Gênese: O sopro divino da criação - Curtição
Curtume.

Curtir a memória do couro. Lavrar o ouro dos ícones.
Escarnar as estampas, escaneá-las.
Plasmá-las, arando, riscando, rasgando, tatuando, escarificando o papel
e recontando a Historia da Arte. Anti-Arte.Anti-Matéria.

Refaz o percurso: “não tenho tempo a perder”.
Tempo circular.Espaço esférico.
A Revolução das Espécies. A Evolução dos Acácios.
Re-ciclo: sobre as imagens imantadas o artista arrisca seu Renascimento.


Jorge Eiró
Publicado no livro: Escritura Exposta, 2006
ODE AO POEMA


Um poema não
É avaro
Matéria-prima
Da poesia

Faz-se ou
Fez-se

À revelia

Do que está por vir
Nas entrelinhas ou

Por sob
A pele

A tez-tempo

O orgasmo

E a esferográfica
Porosa mente


Jorge Andrade,
do livro “Em Memória da Chuva”
MÍPIDE


Euoutro! – Não o touro que te estupra o sonho. És tu pra mim – Suprema – a virgem a vir gentil à pedra onde acampo e componho esta balada em castanholas de Espanha – dispa nhá moça essa blusa de lã, enquanto Dylan escreve uma valsa, e eu alço à balada lá da lápide onde deitas e pedespida que eu a ame em Kiuamí. Euoutro! – Não o touro que te estupra o sonho. És tu pra mim – Estupenda – Eurípides a me pedir prenda em Mípide, o leito de pedra em que te deitas quite contigo-mesmo-e-comigo, ao cume gozoso do mês vindouro – eu vim do ouro por ti – do outubro-pasto, do outro bruto a te cobrir o corpo debruçado. Não o touro que te estupra o sonho – O casto!


Joãozinho Gomes
DESENCANTAR NA PALAVRA

Desencantar na palavra, seus habitantes ocultos.
Seres, velados seres. Desencantar o fruto na
árvore de sílabas. Imolar as palavras na cerimônia
do poema.

Oh! Cidade submersa na linguagem. Fatal é desvelá-las, reabrir-lhe as portas como o vento que reparte as nuvens: Acender-Ihes o jardim da edênica serpente. Cravar de novo os dentes na polpa do pecado. Florir de novo, o castigado amor. Iluminar-lhe as trevas. Evolar-Ihe o incenso. Penetrar as mãos para colher o poema no útero da palavra. Escrever. Seguir os passos de amorosos guias. Guiar-se pela dúvida. Reacender línguas de fogo nos fonemas.



João de Jesus Paes Loureiro
O SALTO

A moça disse: vou pular daquela pedra ali. A pedra era uma falésia de cinqüenta, sessenta metros, ou mais até, que produzia sombra na enseada onde nadáva­mos. Realmente, logo apareceu no topo do paredão. Se estivesse pálida ou crispada não saberíamos reco-nhecer, mera silhueta, vago arbusto talvez. Ela gritou: ei, pessoal. Saltou em seguida, o corpo reto de peixe, voavam os cabelos na extremidade do peixe ou da flexa, que a velocidade era de flexa, instante de beleza. A cabeça mergulhou nas águas pilotando o corpo retesado, espada súbita. Pouco depois, à superfície tornava e deixou imóvel ficar-se flutuando, as pernas abertas, os braços abertos, a cabeleira soltando-se e espalhando-se feito algas, como os afoga­dos boiando, que só se mexem quando a tração das águas, ou o vento, os impulsiona. A moça, sempre a conhece­mos assim, íntima do mar, no qual brincava como os peixes brincam, ou os pássaros no ar, ou as crianças em qualquer pedaço de chão. Devagar a princípio, a seu redor, todos notamos que a água começou a manchar-se de vermelho.


Haroldo Maranhão,
do livro “Voo da Galinha”
II



Na luz fria a paisagem aparece bruscamente alta e longa. No feixe verde se estendem alfinetes que projeto. Escolho um canto para sentar meus girassóis e avistar crescerem os grãos de milho. Passa dia, passa tarde, dóem-me os calcanhares pela posição de culto. No tricô das árvores, tece o vento sua jibóia curtida que vem lanhar ao sol do meio dia. Lambo passos ao longe. Calço as luvas molhadas. Um espinho no polegar me anuncia de volta, enquanto as nuvens torcem o âmbar da noite que bate à pedra, pedindo entrada. Jorro de medo, avisto um balanço totalmente parado, enquanto meus cabelos emaranham, voados. Faço fogo no que vejo e aqueço o tudo à volta. Deito-me à relva e de imediato sinto cheio de chá. Sou uma xícara com uma aliança dentro. Desfaço-me com a solução de mil agulhas e desmancho como um rio. O rio que sou. O rio que lava os trapos. O rio que leva os ponteiros por onde o tempo escapa.



Élida Lima
Jogos de Outono


nos reconhecemos quando caiu o outono. não havias trazido o teu casaco. eu estava bem agasalhada, mas ainda não era preparada para o fri... qualquer frio. eu queria esfregar teus ombros estreitos, esquentar o teu nariz nos meus........ largos planos. não o fiz. minha viagem supersônica que não sabia respeitar o orgânico das coisas, mas te entreguei sem convidar para os meus jogos. não, as minhas brincadeiras de aquecer. eu ia precisar do teu calor. foi a primeira vez que o outono caiu para mim.o outono foi a primeira estação que eu senti cair.


Élida Lima
¨
Não existe o presente.
Apenas,
na imaginação de adiamentos,
arcas, ânsias,
pendões pêndulos.
O futuro é um espelho bólide
e reflete a fuga que nos esmaga.

Estou ausente.

Sou só as palavras-vínculo
entre a fonte - sua constante -
e a dimensão do invento.

Edson Coelho,
do livro “Do real imaginado”,
Uma correspondência é uma contrapartida
ou uma carta para Nuno Ramos


N: - “Palavras são feitas de matéria escura, quase sólida. Secam rapidamente, depois de pensadas ou ditas”.
D: - Como se estivessem num lugar árido, no deserto do Magreb, sem idioma ou escrita definida?
N: - Sim, “mas secam também antes que saiam da boca”. D: - Like a rolling stone?

Sabe Nuno, ando escrevendo com tinta feita de água; diluindo signos, carimbos com suas palavras eternas, a rose is a rose is a, lavando os tinteiros de cristal.
Tive por muito tempo uma caixa-preta pintada com bolinhas também pretas, uma fixação por dados, un coupè de dès. Agora tenho em meu jardim, apenas, uma caixa de correspondências branca escrito: Palavra e Água, carregando consigo a breve duração de minhas promessas aquosas, projetos, correspondências imaginárias e enormes coincidências.

N: - Correspondência é isso?
N: - Correspondência é isso?
D: - Input, Output.


Danielle Fonseca é artista visual.
Término e Crisálida

Mesmo que nossos lábios fossem silêncio e as palavras não fizessem mais a vez das mãos, ainda, assim, seríamos dois, uma possibilidade. Meu corpo se traduz texto. Teu corpo se traduz vida. Essa vontade incendiária em nossas peles. A tua presença, teu próprio texto escrito. A tua leitura, uma possibilidade minha. Eu, o narrador, a minha face irrevelável. Tuas mãos em meu corpo. Eu que existo em teus olhos. Tu és agora o que me reescreve, a agonia, o que me faz um filho. A tua leitura pelos lábios das letras. Eu, a falsa promessa, aquele que narra. O erro predestinado. Não se estar morto, vida, pura ficção. Uma pequena verdade.

Ser o narrador: em tuas mãos uma fala sem nome, a marca que se ressignifica de ti. Cria sons, odores e mágoas. Vários amores vencidos. Tua leitura, os lábios traçados em silêncio, insones destinos. Os olhos redivivos. Tu, o leitor. Treliças do arco-íris. Fugaz teu movimento de sobrancelhas, revelas uma nova cor. Íris, a tua leitura. Assim me dás alguma vida. O dizer das palavras.

Texto. A nossa conjunção carnal.
Derramas em mim teu próprio signo.
E de nossos corpos a água se faz transcrita.

Eu o que narra. Tu o que lê. Entrepalavras, entre vidas, um entremundos.
Natural o teu abandono. A despedida das tuas mãos. Os pedaços da tua pele em álibi. Aqui tu estiveste. Volto a mim. O erro predestinado. Agora, aqui, essa hora marcada do nosso desencontro. Ficaste tu, o que me aviva e apalavra o meu vazio.

o amanhã, a tua outra leitura. Vária essa minha face híbrida. De nós, a terceira língua. Fica essa verdade. Tua presença sempre me atrai. O texto que assim corpo se diz. Seduz. Sabes de mim as tuas imagens. Sei de ti as tuas mãos e alguns silêncios.

Uma marca, um só corpo feito de várias vidas. O fim exato como certeza.
Algum verbo de adeus.

As cinzas dos teus olhos. A rediviva pele. Uma outra vida além do ponto final. Tu que me deste a alma. Eu, tua voz invisível. Na próxima história uma página em branco. A justa homenagem ao silêncio das palavras, à vida ainda não escrita, uma possibilidade tua. Obrigado por teus olhos. Obrigado por tua boa vontade. Obrigado por nossas vidas se entrelaçarem por um instante. Aqui, nosso desencontro marcado. Meu término, tua crisálida. Nossas vidas, sempre, o maior poema.

Nasce, enfim, meu término.
Nasce, aqui, tua crisálida.
O mesmo parto. O mesmo porto.
A face grávida de um nome.
A palavra em pré-amar. O oceano de nossas vidas.
Tua leitura.
O texto que veio à luz.


Daniel da Rocha Leite,
do livro "INVISIBILIDADES"
Últimas Palavras de um Barco

Eu sou minha margem proibida. Nasci de um amor gapuia e minhas mãos líquidas me turvam a vista. Eu mesmo me adoeço. Meu ânimo se esvai, seca. Vivo verde-escuro, segredo água nessa face limo de minha proa. Marcas de toda pré-amar sangrada. Eu me venço nesses glóbulos de lodo silenciados. Faço-me vazante e me revelo junco.

Sempre fui porto nessas águas. Agora, aqui de barro e sangue, parto o que me é verdade e nunca quis. Algo de mim se entrega, mas reconheço que devo resistir. Reconhecer, verbo que exige distância. Olho pra mim fora do meu corpo, suspenso no espaço indivisível, a lâmina desse rio estrada. Meu madeiro está vazio. Alguém espera.

Não existo em mim agora, desengano-me nesse abraço, o sereno corpo de uma verdade exposta. Silhueta-me no meio de tantos outros eus que asfixiei em mim. Todos me calam e leio a palavra ágrafa. lnsinceridade.

O trapiche existe pra que eu queira voltar. Benigna água.

A tarde desvenda a lançante, como é úmido esse ar fêmeo. Vozes se encerram nas velas, falam dos corpos que vêm dar na praia. De várias marés se faz minha partida, ímpar, agora, essa corda que me desata. Água, uma possibilidade confidente. O norte é a cidade acima. À beira, o sal que me escorre do ventre. Recolho minha âncora incrustada de corais.

Ser o rio, a história das águas. Taumaturga vontade.

A foz, a crença em outra carne. Lanço-me água-viva.

O que me move está submerso e meu porão alaga um desespero quando se acusa cansado. Escrevo-me na letra desse rio, desosso-me e abro minhas veias barrentas. As águas se fazem força, me arrastam e se dizem caminho. Não. O sentido do rio também é dito no tempo das minhas mãos. Meu nome está inscrito nessa palavra água que busco. Palavra oculta que deságua meu nome em outras terras.

Eu, o corpo presente. Minha pele, a água desnuda.

O caminho nascido sobre as montanhas. De uma rocha congelada o veio da vida. A nascente. A vida que existe pra ser sofrida. Esse último instante que se faz todo saudades. Todos sabem, as águas cobrem as pedras. No cais do porto tu me dás adeus.


Daniel da Rocha Leite,
do livro “Águas Imaginárias”
POSSUÍDO


um haikai se quebra
criaturas poéticas alargam a cova da vida

oh terrível — efêmera poezia

estilhaços de neón na casca do céu
um clamor se alastra na queda da noite

sentir é ato solitário

opulento me possuo — e posso ido
sorver a idéia de ser mais que o Mar Absoluto
lavar as mãos sujas do afago e do golpe

parecer Outro


Dand M,
do livro “possuído, ou a diluição de lorena”
XXVI



ó barcos - para onde ides?

que tão longuíssimo braço de rio

vos ata e afoga

em que águas remotas

de que beleza guamada?

ó barcos que vão pescar

fui eu quem vos sonhou - me levem convosco!

Ápires

Estela do Mar

Dois Irmãos

ouvis este chamado

a poezia se formando

dos ossos deixados no cais

em mim

ouvis!

mas não partis

não vos repartis de mim

ó barcos feridos no horizonte!



Dand M,
do livro “BRANCO - ou 33 poemas diluídos”,
p o e m a l í q u i d o nº 3


sobre as margens que vão enlouquecer

searas

restos de alvorada

o entardecer despe-se em mim

e

diz

:

secretas flores

troncos nus

brumas cortadas

açaizeiros tesos

esteios d’água

e


cala


Dand M,
do livro “André Invisível”
A Corda da Fé

A corda
é uma oração de pés e braços
de mãos seguras
em corpo-a-corpo e desespero
mil almas amarradas e libertas
unidas e desunidas em mil cores
mil caras de mil partes
mais de mil portes
mais de mil faces
mais de mil preces
mais de mil pedidos explodindo em êxtase
explodindo em olhos
em poros, pêlos e apelos
..............................................
A corda é um rio que leva na viagem
é água que lava tudo e todos numa chuva.

Benedicto Monteiro
NOTURNO SER

São os lábios da noite que me
visitam e me lambem,
lazarento cão. Esperas

Só os lábios da noite me excitam
e libertam,
louco amante. Quimeras

Se os lábios da noite hesitam
a língua
lateja no céu das eras

Sem os lábios da noite me ficam
o luar
e o leve vazio. Inútil aquarela


Aristóteles Guilliod de Miranda,
do livro, “Para além dos alísios”, 2003