Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
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21 de jun. de 2010


ODE

Os dedos contam as ondas,
os minutos talvez,
jamais o anelo
Podes marcar a face disfarçada
a barba,
os bens,
todos os sonhos,
mas escravos do real só te aceitamos
na tua farda de pêlos,
sangue,
e ossos.
Quando recrearás a trança libertária
o horizonte do mito,
o Deus negado,
a tela do perene e do intocável?
Quando libertarás a página e o relógio,
o ser distante que revel condenas
ás arestas da ruga e aos frutos sazonados?
Quando,
(desde olhar em diagonal ao espelho e à morte)
farás ruir ao peso de teu gládio
e ao sulco de teu grito
as taças do não ser,
o veneno da aurora,
as portas do visível
e do invisível?
O jamais seremos sós perante a Fonte,
jamais seremos nós e a ti mostramos
o sorriso de "clown" que se reparte
em contorções de esperma,
tédio,
e ódio.
Jamais conservaremos o perfume e a liturgia
e a hora que se esvai não justifica
este desabrochar em cálice e corola.
Não ser,
(embora seja no retrato)
não ter,
(para ao flagelo condenar-se)
não sentir o chamar do céu porque beleza
e memória de ausências povoada.
Estamos sós,
bem sei,
e como e noite
arrancas o teu mundo no arbitrário
e a poesia morde o que não é.
Quem te susteve o braço suicida:
a ode ou o catecismo?
Quem te ligou á sorte deste povo:
o sonho ou a promissória?
Quem te fez espalmar a mão como inocente
e a cabeça baixar como culpado?
Ó tempo
ó dimensão do exílio e da orfandade
e se não digo eterno,
quase eterno,
deixai toda esperança
"voi che entratte"

                            
                 Ruy Paranatinga Barata



22 de fev. de 2010

Primeiro de Maio


“Ao contrário dos anos anteriores, este
ano teremos um primeiro de maio tranqüilo
e sem agitações, já que os subversivos de
nossa pacata cidade, entre eles Ruy Barata,
Raimundo Jinkings, Benedicto Monteiro,
João Luiz Araújo, Humberto Lepes,
Jocelyn Brasil, Sandoval Barbosa e Sá Pereira,
estão presos ou foragidos".
(Dos jornais)


Surja esse verso de maio,
trazido pelos arcanos,
um verso que faça maio,
o maio dos desenganos,
e fel transforme em doçura,
e rendilhando de ternura.
os meus fracassos humanos.

Um verso que me decifre,
nas horas de ansiedade,
que não sendo antologia,
seja a minha humanidade,
levando por onde for,
os meus suspiros de amor
e gritos de liberdade.

Um verso assim como esse:
"Proletários de todo o mundo, (uni-vos").

(Quartel da Companhia de Guardas
da Policia Militar do Estado do Pará, 1º de maio de 1964).



Ruy Barata,

ARTE POÉTICA


Ah, o ofício,
as contorções da espera
entre a noite e a madrugada!
O litúrgico olhar abre cortinas,
o anjo adormeceu,
dança arbitrária
a minha barba de duzentos anos.
Quem poderá restituir-me intacto ao mistério
com o perfume de rosa não tocada?
Quem senão tu,
cântaro e fonte,
abrigo,
terra e pátria onde se esconde
a negra cicatriz que o peito ostenta?
Eis porque espero
(entre a noite e a madrugada)
para que salves
ou lances no infortúnio
o litúrgico olhar que em nova busca
apodrece sob um sol de desespero.


Ruy Paranatinga Barata,
do livro “Anjo dos Abismos”