Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
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26 de set. de 2010



MENTIRAS E VERDADES NO MESMO CHÃO




Não me negues a palavra. Pelas artes de uma palavra segui sozinho ouvindo o grito de outros companheiros a percorrer outro caminho. Naquele tempo, senhora, os pântanos me atraíam e os arrepios do meu corpo aumentavam à visão dos esverdeados, meu corpo fremia. Não me negues a palavra. Pelas artes de uma palavra abri picada diferente que não me levava ao bosque. Ouvia meus companheiros rirem e chorarem fascinados com as veredas, os frutos quase ao alcance das mãos. O meu caminho, senhora, tinha reverberações encantatórias, mentiras e verdades no mesmo chão e o veneno das folhas eu só podia descobrir pelo exercício de meu paladar e do meu corpo. Poderá algum coração, senhora, saber das tantas vezes que estive à beira da morte pelas ânsias de saciar o meu desejo?

Enquanto meus companheiros avançavam em rodopios e encantamentos, eu vencia distâncias tão pequenas que me parecia estar sempre no mesmo lugar.

Não me negues a palavra de cujas artes se nutriu tanto exílio pois se assim o fizeres estarás negando a permissão e as promessas. Não é esse o silêncio de que preciso para atravessar a floresta. Imposto o sossego me faltarão os sons articulados, os ruídos para que não percamos a memória. Não me negues a palavra para que a trilha não se altere nem as perspectivas sejam removidas.


Maria Lúcia Medeiros


28 de fev. de 2010

NA VIGÍLIA QUE ENGENDRO NESSAS FOLHAS


Faz tanto tempo, faz um século, faz sol, faz um verão. Na vigília que engendro nessas folhas há galerias subterrâneas e encontro a cada passo um sonhador que acredita na saída desse túnel. Fantasmas do meu quarto, sombras que todas as noites assistem ao acender das estrelas desse túnel. Cárcere dourado onde prendi meus dentes, a língua estranha e até mesmo um transatlântico de papel. Lições de continentes, luz desvelada entre musgos de um minúsculo jardim, folhas feito céu por sobre a minha cabeça.

E este furor que me impele para as Índias sem soltar a âncora que me prende os pés à casa. Fantástico navegar por entre mangueiras neste verão que só eu vejo anunciado por luas tão perfeitas. Mas não tenho cântaro e o caminho da fonte está perdido. Sobram as asas que não se abrem nessa queda.


Maria Lúcia Medeiros,
       Do livro "Quarto de Hora"

21 de fev. de 2010

HISTÓRIA E PERSONAGEM


Outra noite e uma esfera azulada cintila à minha frente.
Impossível é ver daqui onde me encontro o contorno dos
bálticos países, nem mares, nem as pequenas ilhas Falkland.

Meus óculos descansam num livro aberto ao meu lado. Talvez
eles tornassem mais nítido algum promontório e eu pudesse
distinguir a faixa de terra apontando para um farol incrustado
em pedras semipreciosas.

Obrigo-me daqui deste lugar onde recosto corpo e memória a
ver com nitidez um oceano que não preciso nomear a fustigar
de espuma as minhas costas, a dividir-me, a separar-nos,
espaço que eu inauguro nesta noite para que meu escaler com
marujos arrojados possa fazer a travessia e me levar.

Nesse espaço a memória inscreve, pela ausência, história e
personagem, a passagem nossa, nossa ida e nossa vinda,
trajeto e rota que vai do lugar de sombra deste quarto à esfera
azulada e mítica de onde deito olhar de dor para narrar-te.


Maria Lúcia Medeiros,
do livro “Quarto de Hora,