Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
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15 de ago. de 2010


O MESMO OLHAR DA RUA



...ainda não sabia usar meu olhar quando visse algo parecido com a cena de ontem, um homem vestido por um short suado e riscado de noites mal dormidas andando, caminhando? através do asfalto das duas da tarde, Almirante Barroso, a via mais movimentada da cidade de Belém. Um louco? um transeunte torto? um ermitão? ou um expectador da vida perigosa? Um flanneur pós moderno, líquido, ou alguém que parou no tempo dos neandertais e agora revisita sua floresta remodelada de cal? Os carros enfileiravam-se para não se perder diante de uma possível morte  assassinato no trânsito caótico; ele parecia estar num mundo à parte, queria morrer com essa velocidade intrínseca, seca e suja por fora de seus vestidos rotos. seu rosto não me parecia perdido, ele sabia o que estava fazendo e não fazendo ali, em plena secura de um sol achatado pelas nuvens amordaçadas pelo mormaço... Ele caminhava descalço com pés quentes e calejados de destino, ali, no quase equador, aquele homem sem sombrinha qualquer, poderia se despedaçar a qualquer segundo entre as latarias folgadas dos ônibus sucateados, ou uma motocicleta sem luz, um Jeep reluzente, uma bicicleta, um carro pipa...ele não parecia se importar de que forma morreria, o formato padrão da morte é um empacotamento sinistro que deságua em geladeiras-calabouços do necrotério público, mas aquele homem sabia chamar atenção, e me chamou daquela forma pouco convencional em que o medo que eu possuía naquele instante de quase morte, eu poderia sentir a posse de seu sangue se misturando à gasolina e fumaça de turbinas e ao cotidiano daquelas pessoas que passariam por ali, veriam aquela tragédia e que no máximo serviria para uma crônica de alguém que escreve em blogs publicar, ou para quem sabe, a partir dali, pudesse ver o mundo com bons olhos, olhos de quem não se perderia mais em seus destinos.


           Josette Lassance

21 de fev. de 2010

SAUDADE


hoje
acordei assim
essa saudade
minha
hoje acordei
e não havia aromas a tecer
o jasmim
vencido
trazia seu esqueleto seco
e essa fumaça
de carros
chaminés
de usinas velhas
invadiu a cortina
de ferro da cidade
essa feroz turbina
do dia
não trouxe
nenhuma
canção
hoje acordei
com uma saudade única
mas não queria
crer
que pudesse
ser uma saudade
anêmica
de beijar
o panô do tempo
e
ver o teu rosto puído
roto como um um degrau da vida
tantos caminhos
me deixaram assim
acordar com saudades
e ser a poesia do dia
hoje acordei assim
e não deveria
por honra
das horas por honra de mim mesma
não deveria
ter saudades.

Josette Lassance
MÚSICA DE PÁSSAROS

Ter surpresas como jasmins
no vaso sobre a mesa coberta
por uma toalha xadrez
seria como acordar entre
margaridas brancas
e dormir sobre
violões antigos
vendo da janela lírica
que o amor bateu na porta
e nunca seria tarde
ouvir música de pássaros
sobre as tábuas surradas
da varanda
onde o cheiro de café
e pão caseiro
sairiam da cozinha
como bálsamos
e alimentariam o resto de nossas
vidas.


Josette Lassance,
do livro “Galeria dos Maus”,