Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
www.culturapara.art.br

25 de abr. de 2010


ENSAIO


A palavra não existe
Ela se fez (in)vento

O homem não existe
                 – blefe –
ele fez-se da pala da palavra

                 Homempalavra
                 palavra(H)omem
                 homemqu-as-ehomem
                 palavraquaselavra

O homem-hímem
é das pencas, de palavras:
         filho de larvas

o homem constrói/destr
           a palavra

A palavra,
                o que
                do homem?


      Paulo Nunes


16 de abr. de 2010

   
       fragmento


nas pontas de teus dedos havia um fogo gelado
que se derramava na pele quente

não sei dizer se as montanhas ficaram para trás
do sono anêmico da sombra sem dono
                                     ou se meu abandono
transmutou-se em pássaro de asas mudas

tuas estrelas, contudo, só desaparecem
quando a noite fecha os olhos para dormir e

logo

em meio a poeira amarelada do poema ressurges
como um sol de bronze ou
                                           ro


    Paulo Vieira

9 de abr. de 2010


SOLILÓQUIO


Tudo o que importa é ser maravilhoso.

A maravilha: o gesto da inocência.
E do aceno o milagre a renascença
de deslumbrados olhos infantil espaço
e primavera — o homem volta ao homem;
o inefável gera enfim o mal sublime
no coração deserto; e da terra doença
a rosa azul desponta e levanto-me rei.
— Eu mesmo sou o encantador do mundo!
Seres e estrelas brotam de meus lábios...
e morro deste belo sofrimento
de ser maravilhoso!

                              — Ah, quem pudesse
gritar à noite e ao tempo essas palavras
e partir pelo vento semeando versos
e terminando a criação da terra...


Mário Faustino

31 de mar. de 2010


anjo cego da expiação
ele estava esperando
em silêncio esperando
entregava-se ao que criava
um livro sem título
o dorso amargo de uma fruta
em que se via o mastro
eriçadas palavras talvez sem rumo
provocadas a entrar na nave
                                        [no livro
não mais de ferro vestido
nem de eternos pergaminhos
                                        mas construído no ar
para a viagem do mito & o mistério dos horizontes
folhas de bizarra flor negra
expostas a uma tempestade que se multiplica na memória

propagada até a última noite
a um limiar interdito
                           o fim a fenda o nada
última voz seguida ainda de uma outra
o verbo dissolve todos os elos
                                         a estepe o verso a ravina
açoitados pelo vento
borboletas ziguezagueando no alto
                                                 tuas palavras aéreas
minúsculos demônios vermelhos
avançando crescendo
                             movendo-se
com a precisão dos planetas
                                       & depois
quebrando-se
                   perdidos & abismados fragmentos
emissários alados da morte


        Ney Ferraz Paiva,
              do livro "nave do nada", 2004

26 de mar. de 2010



POEMA-CORPO

Não tricotei 
Meu corpo 
Nem fiei 
A golpes de fúria 
A queixa 
Que ele se queixa 

Por seus poros 
(ele diz) 
o mundo 
entra e sai 

no último inverno 
o tempo em chuva 
a escrita foi de água 
e a poesia 
só não naufragou
porque se atirou num bote 

desde então 
sôfrego 
após pisar 
num búzio 
meu corpo 
desliza 
numa pátina 

hecatombe


Jorge Andrade,
do livro "Em Memória da Chuva",
Prêmio IAP de Literatura - 2002


21 de mar. de 2010

¨
A minha canoa vive
além de mim e da morte.
A forma é sua eternidade.
Língua e linguagem. A sorte.

Eu sou, enquanto navego,
de seu ego, nave, templo.
A sua razão de ser.
Metáfora do momento.

Oh! Geometria com alma!
Assim é minha canoa...
Boiúna boiando. Vago
lume vago que flutua.

O que ficará de nós,
além do nada que é nosso:
madeira, quilhas e ossos
cabelo, pedra e verso?

    João de Jesus Paes Loureiro,
        do livro "O ser aberto"

10 de mar. de 2010

¨

QUANDO CHEGAR as duas da
tarde estará como antes

quando vier sua mão
cedo silente a minha
dela perdida para o lugar
                       que me hospeda

Auto ciente abajur aceso
único borrão num quarto escuro imenso
: suspenso vão para o mar suspenso:

E luz fria para as têmporas
do homem são guelras
que bebem ar e luz
e aquece o mar das comportas

quando o poema for
não haverá reserva, côncavo ventosa
mas mãos plasmadas aos atos
o hiato será o antes de haverem mãos sagradas

quando o quando for tátil
poesias não serão as horas que se lêem
pela espessura e alcance das sombras
e o tapete de uma sombra
deitado como após poente
e desdobrado no lugar
das cortinas de casa


       Karina Jucá

3 de mar. de 2010

.
Há dias para as palavras
e dias mudos.

Celas entre vozes e silêncio,
há dias impenetráveis
e dias cúmplices.

Sob profecias e arbítrios,
há dias só para os deuses
e dias que se interrogam como qualquer homem.



        Rosângela Darwich

28 de fev. de 2010

NA VIGÍLIA QUE ENGENDRO NESSAS FOLHAS


Faz tanto tempo, faz um século, faz sol, faz um verão. Na vigília que engendro nessas folhas há galerias subterrâneas e encontro a cada passo um sonhador que acredita na saída desse túnel. Fantasmas do meu quarto, sombras que todas as noites assistem ao acender das estrelas desse túnel. Cárcere dourado onde prendi meus dentes, a língua estranha e até mesmo um transatlântico de papel. Lições de continentes, luz desvelada entre musgos de um minúsculo jardim, folhas feito céu por sobre a minha cabeça.

E este furor que me impele para as Índias sem soltar a âncora que me prende os pés à casa. Fantástico navegar por entre mangueiras neste verão que só eu vejo anunciado por luas tão perfeitas. Mas não tenho cântaro e o caminho da fonte está perdido. Sobram as asas que não se abrem nessa queda.


Maria Lúcia Medeiros,
       Do livro "Quarto de Hora"

26 de fev. de 2010

POEMA INVISÍVEL


Eu ainda.
Ainda não estou aqui.
Ainda não cheguei.
              Tudo é irreal

Devagar tento juntar
              a cabeça ao corpo

Mas faz teu poema invisível
                              impossível

— Morcego cego preso
           no olho do texto
                             da aranha.

Escreve-o. Escreve e me alimenta


Max Martins,
   Do livro "Poemas Reunidos"

.

surto,

a noite
o arcabouço,
vértebras

        a linha tênue

                o verbo
                                          soa, ecoa,
                trinca

na árdua madrugada

                olhos
                             bocas
                                           narinas

                                           escapam-me


Vasco Cavalcante

OS GRANDES MESTRES


Há uma qualidade que os homens ignoram: viver é
menos
Queda que a pedra da memória
e mais do que as serpentes reconhecem: O odor humano
Está
entre as estrelas morrendo nos seus sonhos
e a terra fria afagada contra o peito
antes de lançar um sol sobre as suas vítimas
Se isso se parece um pouco com as residências do mal
e com casas perdidas em si mesmas,
foram os Cálices da espécie que deram à vida a nutrição e os tumultos
Eu falo da invenção da sede
Porque o homem é o animal de areia que dá sentido às fontes do real
e quanto a noite cai,
bebemos a água escura do ventre das mulheres

Mas vejam: o escorpião instalou as suas ferragens
O céu tem suas lágrimas em silêncio
O caracol da voz,
quando sussurra os enigmas da chuva,
sabe:
Quase nunca é tempo
Quase nunca é tempo
para o perfume do sangue
Quase nunca é tempo
de permanecer humano
Esses rios têm espelhos partidos, e tudo o que foi
submerso
é um caos perdido


Vicente Franz Cecim

25 de fev. de 2010

ESCRITA


quem nos olha é só uma praia
quem nos ouve é só uma praia
qem nos é     é só uma praia

e a praia é um só ver desvendo
                                       verso deserto
o desouvido deus-ouvir                  o som negado

E somos só esta vã escrita
nosso riso-risco contra um espelho, praia
que nos inverte e desescreve
                                     dissolVENDO-NOS


Max Martins,
do livro "O Risco Subscrito"

24 de fev. de 2010

 RASURAS


Meu nome é um rio
Meu nome é um rio que perdeu seu nome
                                                                         Um rio
nem sim
nem não
               Nenhum
                              Somenos correnteza
                              Água masturbada Em vaus
                                                                         peraus
                              em po
                                        luído orgasmo entre varizes
                              Sêmen sem mim
                                                          Mesmice
Onde está meu nome Lá neste rio de lama sem memória e
                                                                        rumo?
Neste amarfanhado leito de inchada falha?
Meu nome é um rio cotoco - um Ícone
                                                         De barro
                                                                  barroco
Um rio que só se-diz
                                      Seduz-se
                                                         Se afaga e afoga
em ego e água: Aquário
Meu nome é um rio tapado
                                       (poço)
                           E aqui se quebrantou meu nome
                                           sua viagem e osso
É esta a sua fissura? E o seu rosto é este
                                                              escuro
atrás da porta
                    espelho
exposto à febre
                         à fera de si mesmo?
                                                Ensimesmado
meu nome é um rio que não tem cura



Max Martins
   do livro "O Risco Subscrito"

MAX MARTINS: O ATO PURO DA LINGUAGEM


Como se efetiva o encontro com uma linguagem nova? De que forma ocorre a descoberta dessa linguagem, o momento fulminante que leva alguém a tocar uma expressão, despertando para a sua reverberação ininterrupta?
Tal movimento enigmático acontece, muitas vezes, quando o processo está em curso, ou continua ao longo da vida. É como se houvesse brechas que libertam uma luminosidade peculiar, leves indícios revelados num instante inexplicável.
Na verdade, sabe-se que nesse silêncio recatado algo paira sobre a efusão feroz, revolvido por uma combustão invisível que só o encontro com a palavra absoluta e autêntica poderia porventura explicar. Emily Dickinson dizia que reconhecia a poesia genuína quando sentia uma espécie de choque elétrico cruzar sua espinha dorsal. Max produz esse efeito, hoje em dia raro.
Suponho que a “solidão essencial” defendida por Maurice Blanchot é uma via de iluminação que acaba por caucionar tais fatos que nos levam ao encontro de uma poesia.
Max deve ter vislumbrado isso tudo.
Em São Brás, na cabana do Marahu, observando uma lápide no cemitério da Soledade, deambulando pela cidade ou rasurando uma palavra no poema escrito.
No início dos anos 80, em Belém, a circulação da poesia que aqui se produzia era precária; pautava-se pela ausência real. Curiosamente, essa produção secreta continuava pulsando naquele que pertencera a uma das gerações mais criativas surgidas no Pará. Max Martins era um destes criadores que herdara toda uma tradição. Soubera filtrar e renovar toda essa herança intelectual e literária, fortalecendo sua base com a riqueza imagética, rítmica de sua própria poesia. Creio que isso dificilmente se repetirá.
Sua dedicação à poesia superou cronologias, estilos, modismos, sem jamais se acomodar em sua expressividade. Ele escrevia para além de si, projetando sua ressonância para além do tempo estipulado, como todo grande poeta é capaz de fazer.
Conheci-o quando trabalhava na SUCAM. Recordo-me ainda a noite em que autografou meu exemplar de Caminho de Marahu, e em seguida dispus sobre a mesa as primeiras edições de O Estranho, H’Era, O ovo Filosófico, O Risco subscrito, e o sorriso tácito que se abriu em seu rosto.
As visitas vespertinas à SUCAM tornaram-se regulares, e as conversas nos encontros fortuitos pelo bar do Parque, ou quando o encontrava por essa Belém arcana, úmida e noturna, furando túneis de mangueiras entre madrugadas etílicas.
Meu destino parecia estar traçado – descobrimos depois como voltamos sempre ao início – e a cidade transformou-se num lugar “aonde se ir”, mas não estar, nem viver.
Tinha a certeza que, apesar da distância aumentando cada vez mais, a poesia do Max continuava a reverberar em mim, à revelia da deriva que me levara para outras geografias. “Saltamos e pulamos, como sapos”, diz um verso bizarro e longínquo de Pessoa.
Mais de quinze anos na Europa consolidaram minha convicção de que o Max conquistara seu lugar de direito como um dos poetas mais genuínos do Brasil, embora o desconhecimento sobre sua obra avançasse impiedoso.
Viver em Belém jamais diminuiu a vitalidade da sua poesia, só entrincheirou-a num isolamento injusto. A sua obra aguarda ainda o reconhecimento urgente. Sua vida na cidade reforçou ainda mais sua originalidade, e o adensamento dessa voz que atravessou sucessivos surtos criativos, demonstrando como os pormenores geográficos não domam a criatividade e o gênio de um poeta. Ele cria seu tempo e as suas fronteiras.
Max dominava sua voz e sua expressão como poucos. O seu diapasão poético é suscetível de se identificar logo à partida. Soube – e utilizo aqui uma imagem derradeira de “Problem der Lyrik” do poeta alemão Gottfried Benn – apanhar a lança e jogá-la para frente, para que outro poeta a descobrisse e desse continuidade a essa corrente de renovação necessária.
Ele atravessou décadas criando, explorando, exprimindo-se. A tensão de sua poesia manteve-se intacta, nova e verdadeira.
Se observarmos a poesia feita por autores brasileiros próximos da sua geração – Ferreira Gullar ou Manoel de Barros, p. ex. – ver-se-á como permaneceu fiel a si mesmo, escavando sua linguagem poética densamente sensual, pródiga, contemporânea.
Quando pensamos nos poetas que continuam a produzir pelo mundo – Bonnefoy, na França; Geoffrey Hill, na Inglaterra; Carlo Edmundo Ory, na Espanha, Herberto Helder, em Portugal ou Andréa Zanzotto, na Itália – vê-se como a poesia do Max perfila-se com toda justiça ao lado destes poetas.
Mas agora o Max mudou-se, como sempre fez em sua poesia. Cabe aos jovens lerem a sua obra. Descobrirem seu fascínio visceral. Tocarem na pele dessa poesia vertiginosa, entregar-se à ascese que cada poema dele nos oferta. Max nunca perdeu o seu ponto cardeal, nunca desvirtuou sua poesia, mergulhou fundo na exploração e na experiência da linguagem.
Um poeta estabelece seus limites, ou supera-os, reconstruindo-se sempre. Essa forma fecunda de encarar a linguagem – “ a fera nos lambendo” -, olhando-a nos olhos, é um dos modos mais eficazes para efetuar a aferição do ponto exato em que um poeta chegou. Max Martins é uma floresta poética pronta para ser descoberta. Cabe a nós que o lemos há muito tempo – com entrega e devoção amigas – apontar aos que estão por vir a grandiosidade dessa poesia. O que ela nos mostrou e mostrará continuamente como ato puro de vida e linguagem.



Jorge Henrique Bastos


TUTU AINDA
enfronhada na luta
entre leito ser campo
de sono ou sexo
(treva seminada
      entre
      entrar-se
ou ser entrada),
se és
refletida
essa pergunta, uma resposta —
aceitas a espera
e a sombra
da espera.

(Eu, ainda desoutro de mim,
todo, dobrado
centauro centrado num trono
de águas,
              ergo —
playtime! — o centerfolder aberto
diante do corpo fechado
em obras
             (menos barro,
             mais espírito
             agora) e já
outro, semi-nada de mim,
vice-touro na sombra, donde falo:
“Destro de mão ou pata, por ti
brando suave
a espada”)

Age de Carvalho
do livro “Caveira 41”, Cosac & Naify, 2003

22 de fev. de 2010

SILENTE

Pra Josse , verbo e cosmogonia


Palavras engordam ou emagrecem a vida porque são.
Palavras.
Nem cor nem cheiro nem sabor: fonemassílabas porque palavras.

Palavra, essa alardia, essa lavra, essa prava,
essa vala-comum que silencia mas repete:
gritographopherida em silêncio:
Psssiiiiuu!

Quero o ressurgir da vida
vez que
palavra é ereto pênis e vulvaouvido recebendo,
pneumassêmen partindo o desespero,
é filho colando-se à boca do útero teu.

Isto é palavra.
E fiat lux!



Paulo Nunes
A vocês,

          de coração,

lego o jogo
da concórdia
entre irmãos que são —
longe de mim,
libertos então
de mim.

(Beijo a imagem:
verão, vocês
descendo a Gärtnergasse
em senso único,
pisando o chão do mesmo sangue,
manos, mãos
dadas).

Dobrada a esquina,
mundo-rei, chegam
notícias do front: eles
a postos,
cada um
latindo a sua missa,
a boca cheia
de Deus.


Age de Carvalho,
     
Do livro "Trans" (inédito), 2010
COMO ILHA, PARA ÁGUA


me dás de vestir.
como água mal acomodada pelas arestas de tuas
fincadas impossibilidades, eu escapo para um lugar
ao longe. e és tu, terra frutífera, bendito chão, que
me segues. te manténs irrigado em sumos
desapossados de mim
como memória de desmanches insulares para a
tua superfície áspera
despachas partículas de terra e hábito à minha
campanha, teu amor e hábito é que me seguem.
moves uma ilha sob os meus passeios, constante
que é o teu amor ou costume no meu toque
essencial. tuas amadas partículas, que me ceguem.


Élida Lima

O LUGAR


Há um lugar mágico, pouco visitado
Para onde esqueço o caminho
Não há sofrer,
Apenas se imprescindível a vontade
Lá, pesco sonhos perdidos no tempo
E me diluo no vazamento dos dias,
Na menstruação dos calendários
Empoeirados lençóis de virgindade
Enlameados de lágrimas
No choro indolor das lembranças
Do que não fomos
Corro com o vento
E sonho.


William Silva