Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
www.culturapara.art.br

10 de mar. de 2010

¨

QUANDO CHEGAR as duas da
tarde estará como antes

quando vier sua mão
cedo silente a minha
dela perdida para o lugar
                       que me hospeda

Auto ciente abajur aceso
único borrão num quarto escuro imenso
: suspenso vão para o mar suspenso:

E luz fria para as têmporas
do homem são guelras
que bebem ar e luz
e aquece o mar das comportas

quando o poema for
não haverá reserva, côncavo ventosa
mas mãos plasmadas aos atos
o hiato será o antes de haverem mãos sagradas

quando o quando for tátil
poesias não serão as horas que se lêem
pela espessura e alcance das sombras
e o tapete de uma sombra
deitado como após poente
e desdobrado no lugar
das cortinas de casa


       Karina Jucá

3 de mar. de 2010

.
Há dias para as palavras
e dias mudos.

Celas entre vozes e silêncio,
há dias impenetráveis
e dias cúmplices.

Sob profecias e arbítrios,
há dias só para os deuses
e dias que se interrogam como qualquer homem.



        Rosângela Darwich

28 de fev. de 2010

NA VIGÍLIA QUE ENGENDRO NESSAS FOLHAS


Faz tanto tempo, faz um século, faz sol, faz um verão. Na vigília que engendro nessas folhas há galerias subterrâneas e encontro a cada passo um sonhador que acredita na saída desse túnel. Fantasmas do meu quarto, sombras que todas as noites assistem ao acender das estrelas desse túnel. Cárcere dourado onde prendi meus dentes, a língua estranha e até mesmo um transatlântico de papel. Lições de continentes, luz desvelada entre musgos de um minúsculo jardim, folhas feito céu por sobre a minha cabeça.

E este furor que me impele para as Índias sem soltar a âncora que me prende os pés à casa. Fantástico navegar por entre mangueiras neste verão que só eu vejo anunciado por luas tão perfeitas. Mas não tenho cântaro e o caminho da fonte está perdido. Sobram as asas que não se abrem nessa queda.


Maria Lúcia Medeiros,
       Do livro "Quarto de Hora"

26 de fev. de 2010

POEMA INVISÍVEL


Eu ainda.
Ainda não estou aqui.
Ainda não cheguei.
              Tudo é irreal

Devagar tento juntar
              a cabeça ao corpo

Mas faz teu poema invisível
                              impossível

— Morcego cego preso
           no olho do texto
                             da aranha.

Escreve-o. Escreve e me alimenta


Max Martins,
   Do livro "Poemas Reunidos"

.

surto,

a noite
o arcabouço,
vértebras

        a linha tênue

                o verbo
                                          soa, ecoa,
                trinca

na árdua madrugada

                olhos
                             bocas
                                           narinas

                                           escapam-me


Vasco Cavalcante

OS GRANDES MESTRES


Há uma qualidade que os homens ignoram: viver é
menos
Queda que a pedra da memória
e mais do que as serpentes reconhecem: O odor humano
Está
entre as estrelas morrendo nos seus sonhos
e a terra fria afagada contra o peito
antes de lançar um sol sobre as suas vítimas
Se isso se parece um pouco com as residências do mal
e com casas perdidas em si mesmas,
foram os Cálices da espécie que deram à vida a nutrição e os tumultos
Eu falo da invenção da sede
Porque o homem é o animal de areia que dá sentido às fontes do real
e quanto a noite cai,
bebemos a água escura do ventre das mulheres

Mas vejam: o escorpião instalou as suas ferragens
O céu tem suas lágrimas em silêncio
O caracol da voz,
quando sussurra os enigmas da chuva,
sabe:
Quase nunca é tempo
Quase nunca é tempo
para o perfume do sangue
Quase nunca é tempo
de permanecer humano
Esses rios têm espelhos partidos, e tudo o que foi
submerso
é um caos perdido


Vicente Franz Cecim

25 de fev. de 2010

ESCRITA


quem nos olha é só uma praia
quem nos ouve é só uma praia
qem nos é     é só uma praia

e a praia é um só ver desvendo
                                       verso deserto
o desouvido deus-ouvir                  o som negado

E somos só esta vã escrita
nosso riso-risco contra um espelho, praia
que nos inverte e desescreve
                                     dissolVENDO-NOS


Max Martins,
do livro "O Risco Subscrito"

24 de fev. de 2010

 RASURAS


Meu nome é um rio
Meu nome é um rio que perdeu seu nome
                                                                         Um rio
nem sim
nem não
               Nenhum
                              Somenos correnteza
                              Água masturbada Em vaus
                                                                         peraus
                              em po
                                        luído orgasmo entre varizes
                              Sêmen sem mim
                                                          Mesmice
Onde está meu nome Lá neste rio de lama sem memória e
                                                                        rumo?
Neste amarfanhado leito de inchada falha?
Meu nome é um rio cotoco - um Ícone
                                                         De barro
                                                                  barroco
Um rio que só se-diz
                                      Seduz-se
                                                         Se afaga e afoga
em ego e água: Aquário
Meu nome é um rio tapado
                                       (poço)
                           E aqui se quebrantou meu nome
                                           sua viagem e osso
É esta a sua fissura? E o seu rosto é este
                                                              escuro
atrás da porta
                    espelho
exposto à febre
                         à fera de si mesmo?
                                                Ensimesmado
meu nome é um rio que não tem cura



Max Martins
   do livro "O Risco Subscrito"

MAX MARTINS: O ATO PURO DA LINGUAGEM


Como se efetiva o encontro com uma linguagem nova? De que forma ocorre a descoberta dessa linguagem, o momento fulminante que leva alguém a tocar uma expressão, despertando para a sua reverberação ininterrupta?
Tal movimento enigmático acontece, muitas vezes, quando o processo está em curso, ou continua ao longo da vida. É como se houvesse brechas que libertam uma luminosidade peculiar, leves indícios revelados num instante inexplicável.
Na verdade, sabe-se que nesse silêncio recatado algo paira sobre a efusão feroz, revolvido por uma combustão invisível que só o encontro com a palavra absoluta e autêntica poderia porventura explicar. Emily Dickinson dizia que reconhecia a poesia genuína quando sentia uma espécie de choque elétrico cruzar sua espinha dorsal. Max produz esse efeito, hoje em dia raro.
Suponho que a “solidão essencial” defendida por Maurice Blanchot é uma via de iluminação que acaba por caucionar tais fatos que nos levam ao encontro de uma poesia.
Max deve ter vislumbrado isso tudo.
Em São Brás, na cabana do Marahu, observando uma lápide no cemitério da Soledade, deambulando pela cidade ou rasurando uma palavra no poema escrito.
No início dos anos 80, em Belém, a circulação da poesia que aqui se produzia era precária; pautava-se pela ausência real. Curiosamente, essa produção secreta continuava pulsando naquele que pertencera a uma das gerações mais criativas surgidas no Pará. Max Martins era um destes criadores que herdara toda uma tradição. Soubera filtrar e renovar toda essa herança intelectual e literária, fortalecendo sua base com a riqueza imagética, rítmica de sua própria poesia. Creio que isso dificilmente se repetirá.
Sua dedicação à poesia superou cronologias, estilos, modismos, sem jamais se acomodar em sua expressividade. Ele escrevia para além de si, projetando sua ressonância para além do tempo estipulado, como todo grande poeta é capaz de fazer.
Conheci-o quando trabalhava na SUCAM. Recordo-me ainda a noite em que autografou meu exemplar de Caminho de Marahu, e em seguida dispus sobre a mesa as primeiras edições de O Estranho, H’Era, O ovo Filosófico, O Risco subscrito, e o sorriso tácito que se abriu em seu rosto.
As visitas vespertinas à SUCAM tornaram-se regulares, e as conversas nos encontros fortuitos pelo bar do Parque, ou quando o encontrava por essa Belém arcana, úmida e noturna, furando túneis de mangueiras entre madrugadas etílicas.
Meu destino parecia estar traçado – descobrimos depois como voltamos sempre ao início – e a cidade transformou-se num lugar “aonde se ir”, mas não estar, nem viver.
Tinha a certeza que, apesar da distância aumentando cada vez mais, a poesia do Max continuava a reverberar em mim, à revelia da deriva que me levara para outras geografias. “Saltamos e pulamos, como sapos”, diz um verso bizarro e longínquo de Pessoa.
Mais de quinze anos na Europa consolidaram minha convicção de que o Max conquistara seu lugar de direito como um dos poetas mais genuínos do Brasil, embora o desconhecimento sobre sua obra avançasse impiedoso.
Viver em Belém jamais diminuiu a vitalidade da sua poesia, só entrincheirou-a num isolamento injusto. A sua obra aguarda ainda o reconhecimento urgente. Sua vida na cidade reforçou ainda mais sua originalidade, e o adensamento dessa voz que atravessou sucessivos surtos criativos, demonstrando como os pormenores geográficos não domam a criatividade e o gênio de um poeta. Ele cria seu tempo e as suas fronteiras.
Max dominava sua voz e sua expressão como poucos. O seu diapasão poético é suscetível de se identificar logo à partida. Soube – e utilizo aqui uma imagem derradeira de “Problem der Lyrik” do poeta alemão Gottfried Benn – apanhar a lança e jogá-la para frente, para que outro poeta a descobrisse e desse continuidade a essa corrente de renovação necessária.
Ele atravessou décadas criando, explorando, exprimindo-se. A tensão de sua poesia manteve-se intacta, nova e verdadeira.
Se observarmos a poesia feita por autores brasileiros próximos da sua geração – Ferreira Gullar ou Manoel de Barros, p. ex. – ver-se-á como permaneceu fiel a si mesmo, escavando sua linguagem poética densamente sensual, pródiga, contemporânea.
Quando pensamos nos poetas que continuam a produzir pelo mundo – Bonnefoy, na França; Geoffrey Hill, na Inglaterra; Carlo Edmundo Ory, na Espanha, Herberto Helder, em Portugal ou Andréa Zanzotto, na Itália – vê-se como a poesia do Max perfila-se com toda justiça ao lado destes poetas.
Mas agora o Max mudou-se, como sempre fez em sua poesia. Cabe aos jovens lerem a sua obra. Descobrirem seu fascínio visceral. Tocarem na pele dessa poesia vertiginosa, entregar-se à ascese que cada poema dele nos oferta. Max nunca perdeu o seu ponto cardeal, nunca desvirtuou sua poesia, mergulhou fundo na exploração e na experiência da linguagem.
Um poeta estabelece seus limites, ou supera-os, reconstruindo-se sempre. Essa forma fecunda de encarar a linguagem – “ a fera nos lambendo” -, olhando-a nos olhos, é um dos modos mais eficazes para efetuar a aferição do ponto exato em que um poeta chegou. Max Martins é uma floresta poética pronta para ser descoberta. Cabe a nós que o lemos há muito tempo – com entrega e devoção amigas – apontar aos que estão por vir a grandiosidade dessa poesia. O que ela nos mostrou e mostrará continuamente como ato puro de vida e linguagem.



Jorge Henrique Bastos


TUTU AINDA
enfronhada na luta
entre leito ser campo
de sono ou sexo
(treva seminada
      entre
      entrar-se
ou ser entrada),
se és
refletida
essa pergunta, uma resposta —
aceitas a espera
e a sombra
da espera.

(Eu, ainda desoutro de mim,
todo, dobrado
centauro centrado num trono
de águas,
              ergo —
playtime! — o centerfolder aberto
diante do corpo fechado
em obras
             (menos barro,
             mais espírito
             agora) e já
outro, semi-nada de mim,
vice-touro na sombra, donde falo:
“Destro de mão ou pata, por ti
brando suave
a espada”)

Age de Carvalho
do livro “Caveira 41”, Cosac & Naify, 2003

22 de fev. de 2010

SILENTE

Pra Josse , verbo e cosmogonia


Palavras engordam ou emagrecem a vida porque são.
Palavras.
Nem cor nem cheiro nem sabor: fonemassílabas porque palavras.

Palavra, essa alardia, essa lavra, essa prava,
essa vala-comum que silencia mas repete:
gritographopherida em silêncio:
Psssiiiiuu!

Quero o ressurgir da vida
vez que
palavra é ereto pênis e vulvaouvido recebendo,
pneumassêmen partindo o desespero,
é filho colando-se à boca do útero teu.

Isto é palavra.
E fiat lux!



Paulo Nunes
A vocês,

          de coração,

lego o jogo
da concórdia
entre irmãos que são —
longe de mim,
libertos então
de mim.

(Beijo a imagem:
verão, vocês
descendo a Gärtnergasse
em senso único,
pisando o chão do mesmo sangue,
manos, mãos
dadas).

Dobrada a esquina,
mundo-rei, chegam
notícias do front: eles
a postos,
cada um
latindo a sua missa,
a boca cheia
de Deus.


Age de Carvalho,
     
Do livro "Trans" (inédito), 2010
COMO ILHA, PARA ÁGUA


me dás de vestir.
como água mal acomodada pelas arestas de tuas
fincadas impossibilidades, eu escapo para um lugar
ao longe. e és tu, terra frutífera, bendito chão, que
me segues. te manténs irrigado em sumos
desapossados de mim
como memória de desmanches insulares para a
tua superfície áspera
despachas partículas de terra e hábito à minha
campanha, teu amor e hábito é que me seguem.
moves uma ilha sob os meus passeios, constante
que é o teu amor ou costume no meu toque
essencial. tuas amadas partículas, que me ceguem.


Élida Lima

O LUGAR


Há um lugar mágico, pouco visitado
Para onde esqueço o caminho
Não há sofrer,
Apenas se imprescindível a vontade
Lá, pesco sonhos perdidos no tempo
E me diluo no vazamento dos dias,
Na menstruação dos calendários
Empoeirados lençóis de virgindade
Enlameados de lágrimas
No choro indolor das lembranças
Do que não fomos
Corro com o vento
E sonho.


William Silva

VINHO DO ENCONTRO


Por sua chegada com o acontecimento
dos repousos

Das regiões selvagens
Por sua chegada
Por sua vinda ao Encontro

daquele que na sombra treme de prazer

sua chegada de lodo
e sua chegada de fonte

que ali é
espera e guarda à residência


Vicente Franz Cecim,
do livro “Música do Sangue das Estrelas”,

Primeiro de Maio


“Ao contrário dos anos anteriores, este
ano teremos um primeiro de maio tranqüilo
e sem agitações, já que os subversivos de
nossa pacata cidade, entre eles Ruy Barata,
Raimundo Jinkings, Benedicto Monteiro,
João Luiz Araújo, Humberto Lepes,
Jocelyn Brasil, Sandoval Barbosa e Sá Pereira,
estão presos ou foragidos".
(Dos jornais)


Surja esse verso de maio,
trazido pelos arcanos,
um verso que faça maio,
o maio dos desenganos,
e fel transforme em doçura,
e rendilhando de ternura.
os meus fracassos humanos.

Um verso que me decifre,
nas horas de ansiedade,
que não sendo antologia,
seja a minha humanidade,
levando por onde for,
os meus suspiros de amor
e gritos de liberdade.

Um verso assim como esse:
"Proletários de todo o mundo, (uni-vos").

(Quartel da Companhia de Guardas
da Policia Militar do Estado do Pará, 1º de maio de 1964).



Ruy Barata,

ARTE POÉTICA


Ah, o ofício,
as contorções da espera
entre a noite e a madrugada!
O litúrgico olhar abre cortinas,
o anjo adormeceu,
dança arbitrária
a minha barba de duzentos anos.
Quem poderá restituir-me intacto ao mistério
com o perfume de rosa não tocada?
Quem senão tu,
cântaro e fonte,
abrigo,
terra e pátria onde se esconde
a negra cicatriz que o peito ostenta?
Eis porque espero
(entre a noite e a madrugada)
para que salves
ou lances no infortúnio
o litúrgico olhar que em nova busca
apodrece sob um sol de desespero.


Ruy Paranatinga Barata,
do livro “Anjo dos Abismos”

¨
Ouvia o canto de um rouxinol por entre as casas
quando alguém perguntou se somos espécies grandes de pássaros.
Não, eu disse, rindo onde hoje não mais riria,
pássaro que sou, pesado de saudade.

Envelheci enquanto olhava os telhados do que sei agora.
Som que se mantém através das aves,
o passado é um espelho sem asas como eu,
parede coberta com a imagem da parede oposta.

______________________________


Outras coisas que conheço e que fazem parte do que me pertence
são também como o tempo
porque o tempo desfila vôos de vários pássaros defronte de olhos cansados
e nos amanhece intacto.

Assim como o tempo se quebra em vários pedaços
e desfila asas de vários pássaros em movimento,
que nem tudo nos guarda.
O tempo, ele próprio, nos fecha as asas,
aquece as penas do ventre.

Longe das cascas das árvores, dos galhos altos das árvores,
de quando ainda se pensava vir algum poder de anjos
e fazer, de cada um de nós, anjos pelos ares.


Rosângela Darwich

haute couture


chegou por demais atrasada. a barra da saia desfiava!
com um estojo de manicure, ela ensaiava alinhavos.
cada prega da saia colegial a despudorava, o homem de
bigode à village people perdeu-se numa das pregas. o
gênio da lâmpada acarpetou-se em outra. o estiva proto
bem antes já erguia contrabandos por uma preguinha
que fosse. até o apátrida teve seu quinhão... o velho da
horta lambia os beiços. o argonauta afogava as anáguas.

foram as mulheres, no entanto, que, depois do amor,
teciam a barra, passavam a goma e vincavam as dobras.



Rodrigo Maroja Barata

¨
repara o fogo oculto no corpo da palavra.
por vezes somente a surda fagulha das línguas mortas,
a primitiva clava do verbo fendendo o gutural e pálido signo.
deixa que esse fogo seja, de fato, o ígneo feto de tua fala,
singular e claro objeto que, aos solavancos, resvala
no féretro lento que te serve de discurso.
deixa que o sopro deste movimento dê curso
ao incêndio, e cinge tua língua na fuligem
da retórica & da lógica carbonizadas!
deixa assim que, ao perigo do que está prestes a ser dito,
junte-se o desejo contrito de não dizer nada.

deixa, enfim, ao teu aflito interlocutor
o labor e o risco de compreender
ou teu silêncio, ou tuas palavras.


Renato Torres,
Revista Polichinello, nº 5