Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
www.culturapara.art.br

10 de jul. de 2010


O RESTO SÃO PALAVRAS


Fora com esse mar
                                 – Tu és um verso
apenas
              cego e invertebrado
                                             Sonho
de alvaiada máscara
e nada mais

Ou menos: Laudas em vão
em gretas
esse mar de lá
                          De lápide

Que sabes tu senão da geografia
(magra até aos ossos)
do deserto?     Aqui todo começo
e fim de tua viagem
                             pioneiro e prisioneiro
do teu próprio rastro
Atrás da máscara
não há rosto – há palavras
                                        larvas de nada


         
               Max Martins



28 de jun. de 2010


21 de jun. de 2010


ODE

Os dedos contam as ondas,
os minutos talvez,
jamais o anelo
Podes marcar a face disfarçada
a barba,
os bens,
todos os sonhos,
mas escravos do real só te aceitamos
na tua farda de pêlos,
sangue,
e ossos.
Quando recrearás a trança libertária
o horizonte do mito,
o Deus negado,
a tela do perene e do intocável?
Quando libertarás a página e o relógio,
o ser distante que revel condenas
ás arestas da ruga e aos frutos sazonados?
Quando,
(desde olhar em diagonal ao espelho e à morte)
farás ruir ao peso de teu gládio
e ao sulco de teu grito
as taças do não ser,
o veneno da aurora,
as portas do visível
e do invisível?
O jamais seremos sós perante a Fonte,
jamais seremos nós e a ti mostramos
o sorriso de "clown" que se reparte
em contorções de esperma,
tédio,
e ódio.
Jamais conservaremos o perfume e a liturgia
e a hora que se esvai não justifica
este desabrochar em cálice e corola.
Não ser,
(embora seja no retrato)
não ter,
(para ao flagelo condenar-se)
não sentir o chamar do céu porque beleza
e memória de ausências povoada.
Estamos sós,
bem sei,
e como e noite
arrancas o teu mundo no arbitrário
e a poesia morde o que não é.
Quem te susteve o braço suicida:
a ode ou o catecismo?
Quem te ligou á sorte deste povo:
o sonho ou a promissória?
Quem te fez espalmar a mão como inocente
e a cabeça baixar como culpado?
Ó tempo
ó dimensão do exílio e da orfandade
e se não digo eterno,
quase eterno,
deixai toda esperança
"voi che entratte"

                            
                 Ruy Paranatinga Barata




A PEDRA


o miserável adormecido nos braços da estátua
4 leões lambendo a madrugada

 dilata-me as narinas o mal cheiro da Pedra
a baía fustiga barcos com a língua
me açoitam impulsos noturnos
aparto-me da alvorada
dobro o pescoço
abro asas negras devassas

 do alto avisto o mercado a igreja a praça

 puro pássaro – pouso a teu lado
cravo garras na poezia e seu cadáver
revolvo toda a carniça

perverso

daquelas entranhas extraio
verso
verso
verso

até ficar saciado

                              
                           Dand M

30 de mai. de 2010


        Danielle Fonseca

23 de mai. de 2010


A sombra da ausência


O corpo vai, a sombra fica.
Um eco sem voz que assombra

a sala, a mala sendo arrumada
para a viagem, que, dia-a-dia

se faz um pouco sem saber se
é volta ou ida – O copo quebra,

o sabor fica, a aura de um hálito
em torno à boca que se intensifica,

quando um conhecido fantasma
passa pelos terraços da memória

e evoca um nome, um aroma, uma
hora perdida entre as folhas secas

de um outono que se deteriora
conforme a mão do inverno o toca

O céu se ensombra, o azul fica.
Em alguma dobra das pálpebras

da íris, dos cílios, sua luz habita.


                Antônio Moura

15 de mai. de 2010


CÉU


mênstruo tardio - o exílio vício,
adiando a vã cor de seu ar (lambereinando o
                                       escrito, o céu -
                                       o sádico céu
                                       ampliado no teu nome)
                                       dil
                       
                                                    latando

                                        o deserto viril do furo
                                        ao noturno soletrado,
embora
                                Seja raivoso apenas nele:
              
                       à sua exposição
                       ao serpentário.



        
          Wilson Sena


7 de mai. de 2010



Eu era feliz dentro das palavras que me calavam.
Deparava-me com a diferença entre o sonho, que é infinito,
e os pequenos movimentos das pessoas adormecidas.

Eu era feliz como um dia é feliz, como a noite.
Meus pensamentos eram imagens felizes, às vezes significavam algo.
Eu tinha a liberdade de não existir.

Quando era feliz e livre, carregava comigo todas as possibilidades
como quando há espíritos vivendo em uma casa e, por causa das paredes,
eles não estão necessariamente mortos.

Porque minha vida era uma história que alguém soprava ao meu ouvido,
de repente o futuro tornou-se tão concreto quanto o que acontece neste exato momento.

É preciso paciência diante do momento único.
Eu não falo; ele não muda.


      Rosângela Darwich




2 de mai. de 2010

¨
Soneto da Palavra Esquecida

Busco a palavra que serve neste verso
Não é amar, nem noite, nem esperança.
Nem o que lembre mar ou rio perdido
Lago, luar ou solitária dor.

É uma outra que me foge ainda
E que sentado aqui neste momento
Procuro em vão na noite adormecida
Enquanto no céu corre a lua cheia.

É uma palavra que encerra gestos
Interjeições de espanto e de surpresa
Mas que esqueci talvez há muito tempo

Significa desespero vão.
Arrependimento de amar causas partidas
De ser poeta nesta noite plena.

    
            Cauby Cruz
.

25 de abr. de 2010


ENSAIO


A palavra não existe
Ela se fez (in)vento

O homem não existe
                 – blefe –
ele fez-se da pala da palavra

                 Homempalavra
                 palavra(H)omem
                 homemqu-as-ehomem
                 palavraquaselavra

O homem-hímem
é das pencas, de palavras:
         filho de larvas

o homem constrói/destr
           a palavra

A palavra,
                o que
                do homem?


      Paulo Nunes


16 de abr. de 2010

   
       fragmento


nas pontas de teus dedos havia um fogo gelado
que se derramava na pele quente

não sei dizer se as montanhas ficaram para trás
do sono anêmico da sombra sem dono
                                     ou se meu abandono
transmutou-se em pássaro de asas mudas

tuas estrelas, contudo, só desaparecem
quando a noite fecha os olhos para dormir e

logo

em meio a poeira amarelada do poema ressurges
como um sol de bronze ou
                                           ro


    Paulo Vieira

9 de abr. de 2010


SOLILÓQUIO


Tudo o que importa é ser maravilhoso.

A maravilha: o gesto da inocência.
E do aceno o milagre a renascença
de deslumbrados olhos infantil espaço
e primavera — o homem volta ao homem;
o inefável gera enfim o mal sublime
no coração deserto; e da terra doença
a rosa azul desponta e levanto-me rei.
— Eu mesmo sou o encantador do mundo!
Seres e estrelas brotam de meus lábios...
e morro deste belo sofrimento
de ser maravilhoso!

                              — Ah, quem pudesse
gritar à noite e ao tempo essas palavras
e partir pelo vento semeando versos
e terminando a criação da terra...


Mário Faustino

31 de mar. de 2010


anjo cego da expiação
ele estava esperando
em silêncio esperando
entregava-se ao que criava
um livro sem título
o dorso amargo de uma fruta
em que se via o mastro
eriçadas palavras talvez sem rumo
provocadas a entrar na nave
                                        [no livro
não mais de ferro vestido
nem de eternos pergaminhos
                                        mas construído no ar
para a viagem do mito & o mistério dos horizontes
folhas de bizarra flor negra
expostas a uma tempestade que se multiplica na memória

propagada até a última noite
a um limiar interdito
                           o fim a fenda o nada
última voz seguida ainda de uma outra
o verbo dissolve todos os elos
                                         a estepe o verso a ravina
açoitados pelo vento
borboletas ziguezagueando no alto
                                                 tuas palavras aéreas
minúsculos demônios vermelhos
avançando crescendo
                             movendo-se
com a precisão dos planetas
                                       & depois
quebrando-se
                   perdidos & abismados fragmentos
emissários alados da morte


        Ney Ferraz Paiva,
              do livro "nave do nada", 2004

26 de mar. de 2010



POEMA-CORPO

Não tricotei 
Meu corpo 
Nem fiei 
A golpes de fúria 
A queixa 
Que ele se queixa 

Por seus poros 
(ele diz) 
o mundo 
entra e sai 

no último inverno 
o tempo em chuva 
a escrita foi de água 
e a poesia 
só não naufragou
porque se atirou num bote 

desde então 
sôfrego 
após pisar 
num búzio 
meu corpo 
desliza 
numa pátina 

hecatombe


Jorge Andrade,
do livro "Em Memória da Chuva",
Prêmio IAP de Literatura - 2002


21 de mar. de 2010

¨
A minha canoa vive
além de mim e da morte.
A forma é sua eternidade.
Língua e linguagem. A sorte.

Eu sou, enquanto navego,
de seu ego, nave, templo.
A sua razão de ser.
Metáfora do momento.

Oh! Geometria com alma!
Assim é minha canoa...
Boiúna boiando. Vago
lume vago que flutua.

O que ficará de nós,
além do nada que é nosso:
madeira, quilhas e ossos
cabelo, pedra e verso?

    João de Jesus Paes Loureiro,
        do livro "O ser aberto"

10 de mar. de 2010

¨

QUANDO CHEGAR as duas da
tarde estará como antes

quando vier sua mão
cedo silente a minha
dela perdida para o lugar
                       que me hospeda

Auto ciente abajur aceso
único borrão num quarto escuro imenso
: suspenso vão para o mar suspenso:

E luz fria para as têmporas
do homem são guelras
que bebem ar e luz
e aquece o mar das comportas

quando o poema for
não haverá reserva, côncavo ventosa
mas mãos plasmadas aos atos
o hiato será o antes de haverem mãos sagradas

quando o quando for tátil
poesias não serão as horas que se lêem
pela espessura e alcance das sombras
e o tapete de uma sombra
deitado como após poente
e desdobrado no lugar
das cortinas de casa


       Karina Jucá

3 de mar. de 2010

.
Há dias para as palavras
e dias mudos.

Celas entre vozes e silêncio,
há dias impenetráveis
e dias cúmplices.

Sob profecias e arbítrios,
há dias só para os deuses
e dias que se interrogam como qualquer homem.



        Rosângela Darwich

28 de fev. de 2010

NA VIGÍLIA QUE ENGENDRO NESSAS FOLHAS


Faz tanto tempo, faz um século, faz sol, faz um verão. Na vigília que engendro nessas folhas há galerias subterrâneas e encontro a cada passo um sonhador que acredita na saída desse túnel. Fantasmas do meu quarto, sombras que todas as noites assistem ao acender das estrelas desse túnel. Cárcere dourado onde prendi meus dentes, a língua estranha e até mesmo um transatlântico de papel. Lições de continentes, luz desvelada entre musgos de um minúsculo jardim, folhas feito céu por sobre a minha cabeça.

E este furor que me impele para as Índias sem soltar a âncora que me prende os pés à casa. Fantástico navegar por entre mangueiras neste verão que só eu vejo anunciado por luas tão perfeitas. Mas não tenho cântaro e o caminho da fonte está perdido. Sobram as asas que não se abrem nessa queda.


Maria Lúcia Medeiros,
       Do livro "Quarto de Hora"

26 de fev. de 2010

POEMA INVISÍVEL


Eu ainda.
Ainda não estou aqui.
Ainda não cheguei.
              Tudo é irreal

Devagar tento juntar
              a cabeça ao corpo

Mas faz teu poema invisível
                              impossível

— Morcego cego preso
           no olho do texto
                             da aranha.

Escreve-o. Escreve e me alimenta


Max Martins,
   Do livro "Poemas Reunidos"

.

surto,

a noite
o arcabouço,
vértebras

        a linha tênue

                o verbo
                                          soa, ecoa,
                trinca

na árdua madrugada

                olhos
                             bocas
                                           narinas

                                           escapam-me


Vasco Cavalcante