Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
www.culturapara.art.br

21 de fev. de 2010

(Mandesltam)


Hipno guarda a criança
envolta pela música,
alheia às catástrofes;
o homem traslada-se
para fora do tempo
com a mensagem lida
no tronco da amendoeira
que nunca vergou.

O muro ruiu
sob o brilho de estrelas frias,
sobre paixões demolidas,
desencanto e dúvida.
Perante o que foi, é e será.

Mas tu

permaneces.

O sol negro couraça
as palavras que erguem
uma muralha contra a dor.

Um ícone decora as ruínas,
as esquinas sonâmbulas
do outro mundo.

Para que o testemunho
possa chegar ao seu destino
agasalha na ânfora
a palavra estrangulada pela neve,
arrasta o exílio
no ponto
negro.

Fala
para que não esqueçam,
a terra invoca suas metáforas
– será mesmo assim? – .

O silêncio possui aos poucos
o sono dos homens
irremissível.


Jorge Henrique Bastos
¨
Quantas letras me faltam
para te escrever?

As ondas do rio da linguagem
entram pela página

O murmúrio distante do seu movimento
de terror, sede
e escuridão.

Minhas letras não encontram a palavra
para te escrever, ser escrito.

A gramática do rio
desemboca na foz do silêncio
a gotejar sobre mim
como uma gota enorme, plena
toda feita de palavras mudas.




Jorge Henrique Bastos,
do livro “A Idade do Sol”
MAX MARTINS: O ATO PURO DA LINGUAGEM


Como se efetiva o encontro com uma linguagem nova? De que forma ocorre a descoberta dessa linguagem, o momento fulminante que leva alguém a tocar uma expressão, despertando para a sua reverberação ininterrupta?

Tal movimento enigmático acontece, muitas vezes, quando o processo está em curso, ou continua ao longo da vida. É como se houvesse brechas que libertam uma luminosidade peculiar, leves indícios revelados num instante inexplicável.

Na verdade, sabe-se que nesse silêncio recatado algo paira sobre a efusão feroz, revolvido por uma combustão invisível que só o encontro com a palavra absoluta e autêntica poderia porventura explicar. Emily Dickinson dizia que reconhecia a poesia genuína quando sentia uma espécie de choque elétrico cruzar sua espinha dorsal. Max produz esse efeito, hoje em dia raro.

Suponho que a “solidão essencial” defendida por Maurice Blanchot é uma via de iluminação que acaba por caucionar tais fatos que nos levam ao encontro de uma poesia.

Max deve ter vislumbrado isso tudo.

Em São Brás, na cabana do Marahu, observando uma lápide no cemitério da Soledade, deambulando pela cidade ou rasurando uma palavra no poema escrito.

No início dos anos 80, em Belém, a circulação da poesia que aqui se produzia era precária; pautava-se pela ausência real. Curiosamente, essa produção secreta continuava pulsando naquele que pertencera a uma das gerações mais criativas surgidas no Pará. Max Martins era um destes criadores que herdara toda uma tradição.
Soubera filtrar e renovar toda essa herança intelectual e literária, fortalecendo sua base com a riqueza imagética, rítmica de sua própria poesia. Creio que isso dificilmente se repetirá.

Sua dedicação à poesia superou cronologias, estilos, modismos, sem jamais se acomodar em sua expressividade. Ele escrevia para além de si, projetando sua ressonância para além do tempo estipulado, como todo grande poeta é capaz de fazer.

Conheci-o quando trabalhava na SUCAM. Recordo-me ainda a noite em que autografou meu exemplar de Caminho de Marahu, e em seguida dispus sobre a mesa as primeiras edições de O Estranho, H’Era, O ovo Filosófico, O Risco subscrito, e o sorriso tácito que se abriu em seu rosto.

As visitas vespertinas à SUCAM tornaram-se regulares, e as conversas nos encontros fortuitos pelo bar do Parque, ou quando o encontrava por essa Belém arcana, úmida e noturna, furando túneis de mangueiras entre madrugadas etílicas.

Meu destino parecia estar traçado – descobrimos depois como voltamos sempre ao início – e a cidade transformou-se num lugar “aonde se ir”, mas não estar, nem viver.

Tinha a certeza que, apesar da distância aumentando cada vez mais, a poesia do Max continuava a reverberar em mim, à revelia da deriva que me levara para outras geografias. “Saltamos e pulamos, como sapos”, diz um verso bizarro e longínquo de Pessoa.

Mais de quinze anos na Europa consolidaram minha convicção de que o Max conquistara seu lugar de direito como um dos poetas mais genuínos do Brasil, embora o desconhecimento sobre sua obra avançasse impiedoso.

Viver em Belém jamais diminuiu a vitalidade da sua poesia, só entrincheirou-a num isolamento injusto. A sua obra aguarda ainda o reconhecimento urgente. Sua vida na cidade reforçou ainda mais sua originalidade, e o adensamento dessa voz que atravessou sucessivos surtos criativos, demonstrando como os pormenores geográficos não domam a criatividade e o gênio de um poeta. Ele cria seu tempo e as suas fronteiras.

Max dominava sua voz e sua expressão como poucos. O seu diapasão poético é suscetível de se identificar logo à partida. Soube – e utilizo aqui uma imagem derradeira de “Problem der Lyrik” do poeta alemão Gottfried Benn – apanhar a lança e jogá-la para frente, para que outro poeta a descobrisse e desse continuidade a essa corrente de renovação necessária.

Ele atravessou décadas criando, explorando, exprimindo-se. A tensão de sua poesia manteve-se intacta, nova e verdadeira.

Se observarmos a poesia feita por autores brasileiros próximos da sua geração – Ferreira Gullar ou Manoel de Barros, p. ex. – ver-se-á como permaneceu fiel a si mesmo, escavando sua linguagem poética densamente sensual, pródiga, contemporânea.
Quando pensamos nos poetas que continuam a produzir pelo mundo – Bonnefoy, na França; Geoffrey Hill, na Inglaterra; Carlo Edmundo Ory, na Espanha, Herberto Helder, em Portugal ou Andréa Zanzotto, na Itália – vê-se como a poesia do Max perfila-se com toda justiça ao lado destes poetas.

Mas agora o Max mudou-se, como sempre fez em sua poesia. Cabe aos jovens lerem a sua obra. Descobrirem seu fascínio visceral. Tocarem na pele dessa poesia vertiginosa, entregar-se à ascese que cada poema dele nos oferta. Max nunca perdeu o seu ponto cardeal, nunca desvirtuou sua poesia, mergulhou fundo na exploração e na experiência da linguagem.

Um poeta estabelece seus limites, ou supera-os, reconstruindo-se sempre. Essa forma fecunda de encarar a linguagem – “ a fera nos lambendo” -, olhando-a nos olhos, é um dos modos mais eficazes para efetuar a aferição do ponto exato em que um poeta chegou. Max Martins é uma floresta poética pronta para ser descoberta. Cabe a nós que o lemos há muito tempo – com entrega e devoção amigas – apontar aos que estão por vir a grandiosidade dessa poesia. O que ela nos mostrou e mostrará continuamente como ato puro de vida e linguagem.



Jorge Henrique Bastos
Acácio de Capadócia

Transmutação dos elementos passagens.
Alterações de estado, estações do espírito.
Mudanças do corpo. Metamorfoses da carne.
Fênix da matéria.

A idade da Terra. Pedra filosofal.
Celebrações alquímicas: “Operações de feitiçaria”
(como Argan resumiu Picasso).
Mantas imantadas de mágica multiplicam-se
tantas: mantras, tantras...
Transcendências.

Lava incandescente vertendo do vulcão do mago: magma
Cadinho/caldeirão: fundição, fusão, fissão, liquefação.
Metais, minerais, motores, corações e mentes mutantes.
Solidificação, combustão, evaporação. Sublimação.
Moto-continuo. Moto-perpétuo.

Estados d’alma. Substâncias instáveis.
Instâncias voláteis. Instalações no vácuo.
Campos magnéticos. Poeira-pigmento interestrelar. Pinturas de plasma.
Despojos cartesianos. Descartes: “O Tirador de Espinho”.
Descurtumes: couro de cobra,
descobrindo-se, desdobrando-se, descarnando-se.
Obra engolindo cobra, apropriando-se do espaço,
apoderando-se do tempo.
Coral descolorida. Cascavel desvelada. La Naja Desnuda.

Multiprocessador da matéria. Translações de tempo e espaço.
Buracos-negros engolindo luz,
aspirando nosso frágil pó para outras dimensões.
Tempestades solares cozinhando a cera: Encáustica Cósmica.

Matéria esotérica. Etérea.
Maetérea.
Mater Matéria.

Gênese: O sopro divino da criação - Curtição
Curtume.

Curtir a memória do couro. Lavrar o ouro dos ícones.
Escarnar as estampas, escaneá-las.
Plasmá-las, arando, riscando, rasgando, tatuando, escarificando o papel
e recontando a Historia da Arte. Anti-Arte.Anti-Matéria.

Refaz o percurso: “não tenho tempo a perder”.
Tempo circular.Espaço esférico.
A Revolução das Espécies. A Evolução dos Acácios.
Re-ciclo: sobre as imagens imantadas o artista arrisca seu Renascimento.


Jorge Eiró
Publicado no livro: Escritura Exposta, 2006
ODE AO POEMA


Um poema não
É avaro
Matéria-prima
Da poesia

Faz-se ou
Fez-se

À revelia

Do que está por vir
Nas entrelinhas ou

Por sob
A pele

A tez-tempo

O orgasmo

E a esferográfica
Porosa mente


Jorge Andrade,
do livro “Em Memória da Chuva”
MÍPIDE


Euoutro! – Não o touro que te estupra o sonho. És tu pra mim – Suprema – a virgem a vir gentil à pedra onde acampo e componho esta balada em castanholas de Espanha – dispa nhá moça essa blusa de lã, enquanto Dylan escreve uma valsa, e eu alço à balada lá da lápide onde deitas e pedespida que eu a ame em Kiuamí. Euoutro! – Não o touro que te estupra o sonho. És tu pra mim – Estupenda – Eurípides a me pedir prenda em Mípide, o leito de pedra em que te deitas quite contigo-mesmo-e-comigo, ao cume gozoso do mês vindouro – eu vim do ouro por ti – do outubro-pasto, do outro bruto a te cobrir o corpo debruçado. Não o touro que te estupra o sonho – O casto!


Joãozinho Gomes
DESENCANTAR NA PALAVRA

Desencantar na palavra, seus habitantes ocultos.
Seres, velados seres. Desencantar o fruto na
árvore de sílabas. Imolar as palavras na cerimônia
do poema.

Oh! Cidade submersa na linguagem. Fatal é desvelá-las, reabrir-lhe as portas como o vento que reparte as nuvens: Acender-Ihes o jardim da edênica serpente. Cravar de novo os dentes na polpa do pecado. Florir de novo, o castigado amor. Iluminar-lhe as trevas. Evolar-Ihe o incenso. Penetrar as mãos para colher o poema no útero da palavra. Escrever. Seguir os passos de amorosos guias. Guiar-se pela dúvida. Reacender línguas de fogo nos fonemas.



João de Jesus Paes Loureiro
O SALTO

A moça disse: vou pular daquela pedra ali. A pedra era uma falésia de cinqüenta, sessenta metros, ou mais até, que produzia sombra na enseada onde nadáva­mos. Realmente, logo apareceu no topo do paredão. Se estivesse pálida ou crispada não saberíamos reco-nhecer, mera silhueta, vago arbusto talvez. Ela gritou: ei, pessoal. Saltou em seguida, o corpo reto de peixe, voavam os cabelos na extremidade do peixe ou da flexa, que a velocidade era de flexa, instante de beleza. A cabeça mergulhou nas águas pilotando o corpo retesado, espada súbita. Pouco depois, à superfície tornava e deixou imóvel ficar-se flutuando, as pernas abertas, os braços abertos, a cabeleira soltando-se e espalhando-se feito algas, como os afoga­dos boiando, que só se mexem quando a tração das águas, ou o vento, os impulsiona. A moça, sempre a conhece­mos assim, íntima do mar, no qual brincava como os peixes brincam, ou os pássaros no ar, ou as crianças em qualquer pedaço de chão. Devagar a princípio, a seu redor, todos notamos que a água começou a manchar-se de vermelho.


Haroldo Maranhão,
do livro “Voo da Galinha”
II



Na luz fria a paisagem aparece bruscamente alta e longa. No feixe verde se estendem alfinetes que projeto. Escolho um canto para sentar meus girassóis e avistar crescerem os grãos de milho. Passa dia, passa tarde, dóem-me os calcanhares pela posição de culto. No tricô das árvores, tece o vento sua jibóia curtida que vem lanhar ao sol do meio dia. Lambo passos ao longe. Calço as luvas molhadas. Um espinho no polegar me anuncia de volta, enquanto as nuvens torcem o âmbar da noite que bate à pedra, pedindo entrada. Jorro de medo, avisto um balanço totalmente parado, enquanto meus cabelos emaranham, voados. Faço fogo no que vejo e aqueço o tudo à volta. Deito-me à relva e de imediato sinto cheio de chá. Sou uma xícara com uma aliança dentro. Desfaço-me com a solução de mil agulhas e desmancho como um rio. O rio que sou. O rio que lava os trapos. O rio que leva os ponteiros por onde o tempo escapa.



Élida Lima
Jogos de Outono


nos reconhecemos quando caiu o outono. não havias trazido o teu casaco. eu estava bem agasalhada, mas ainda não era preparada para o fri... qualquer frio. eu queria esfregar teus ombros estreitos, esquentar o teu nariz nos meus........ largos planos. não o fiz. minha viagem supersônica que não sabia respeitar o orgânico das coisas, mas te entreguei sem convidar para os meus jogos. não, as minhas brincadeiras de aquecer. eu ia precisar do teu calor. foi a primeira vez que o outono caiu para mim.o outono foi a primeira estação que eu senti cair.


Élida Lima
¨
Não existe o presente.
Apenas,
na imaginação de adiamentos,
arcas, ânsias,
pendões pêndulos.
O futuro é um espelho bólide
e reflete a fuga que nos esmaga.

Estou ausente.

Sou só as palavras-vínculo
entre a fonte - sua constante -
e a dimensão do invento.

Edson Coelho,
do livro “Do real imaginado”,
Uma correspondência é uma contrapartida
ou uma carta para Nuno Ramos


N: - “Palavras são feitas de matéria escura, quase sólida. Secam rapidamente, depois de pensadas ou ditas”.
D: - Como se estivessem num lugar árido, no deserto do Magreb, sem idioma ou escrita definida?
N: - Sim, “mas secam também antes que saiam da boca”. D: - Like a rolling stone?

Sabe Nuno, ando escrevendo com tinta feita de água; diluindo signos, carimbos com suas palavras eternas, a rose is a rose is a, lavando os tinteiros de cristal.
Tive por muito tempo uma caixa-preta pintada com bolinhas também pretas, uma fixação por dados, un coupè de dès. Agora tenho em meu jardim, apenas, uma caixa de correspondências branca escrito: Palavra e Água, carregando consigo a breve duração de minhas promessas aquosas, projetos, correspondências imaginárias e enormes coincidências.

N: - Correspondência é isso?
N: - Correspondência é isso?
D: - Input, Output.


Danielle Fonseca é artista visual.
Término e Crisálida

Mesmo que nossos lábios fossem silêncio e as palavras não fizessem mais a vez das mãos, ainda, assim, seríamos dois, uma possibilidade. Meu corpo se traduz texto. Teu corpo se traduz vida. Essa vontade incendiária em nossas peles. A tua presença, teu próprio texto escrito. A tua leitura, uma possibilidade minha. Eu, o narrador, a minha face irrevelável. Tuas mãos em meu corpo. Eu que existo em teus olhos. Tu és agora o que me reescreve, a agonia, o que me faz um filho. A tua leitura pelos lábios das letras. Eu, a falsa promessa, aquele que narra. O erro predestinado. Não se estar morto, vida, pura ficção. Uma pequena verdade.

Ser o narrador: em tuas mãos uma fala sem nome, a marca que se ressignifica de ti. Cria sons, odores e mágoas. Vários amores vencidos. Tua leitura, os lábios traçados em silêncio, insones destinos. Os olhos redivivos. Tu, o leitor. Treliças do arco-íris. Fugaz teu movimento de sobrancelhas, revelas uma nova cor. Íris, a tua leitura. Assim me dás alguma vida. O dizer das palavras.

Texto. A nossa conjunção carnal.
Derramas em mim teu próprio signo.
E de nossos corpos a água se faz transcrita.

Eu o que narra. Tu o que lê. Entrepalavras, entre vidas, um entremundos.
Natural o teu abandono. A despedida das tuas mãos. Os pedaços da tua pele em álibi. Aqui tu estiveste. Volto a mim. O erro predestinado. Agora, aqui, essa hora marcada do nosso desencontro. Ficaste tu, o que me aviva e apalavra o meu vazio.

o amanhã, a tua outra leitura. Vária essa minha face híbrida. De nós, a terceira língua. Fica essa verdade. Tua presença sempre me atrai. O texto que assim corpo se diz. Seduz. Sabes de mim as tuas imagens. Sei de ti as tuas mãos e alguns silêncios.

Uma marca, um só corpo feito de várias vidas. O fim exato como certeza.
Algum verbo de adeus.

As cinzas dos teus olhos. A rediviva pele. Uma outra vida além do ponto final. Tu que me deste a alma. Eu, tua voz invisível. Na próxima história uma página em branco. A justa homenagem ao silêncio das palavras, à vida ainda não escrita, uma possibilidade tua. Obrigado por teus olhos. Obrigado por tua boa vontade. Obrigado por nossas vidas se entrelaçarem por um instante. Aqui, nosso desencontro marcado. Meu término, tua crisálida. Nossas vidas, sempre, o maior poema.

Nasce, enfim, meu término.
Nasce, aqui, tua crisálida.
O mesmo parto. O mesmo porto.
A face grávida de um nome.
A palavra em pré-amar. O oceano de nossas vidas.
Tua leitura.
O texto que veio à luz.


Daniel da Rocha Leite,
do livro "INVISIBILIDADES"
Últimas Palavras de um Barco

Eu sou minha margem proibida. Nasci de um amor gapuia e minhas mãos líquidas me turvam a vista. Eu mesmo me adoeço. Meu ânimo se esvai, seca. Vivo verde-escuro, segredo água nessa face limo de minha proa. Marcas de toda pré-amar sangrada. Eu me venço nesses glóbulos de lodo silenciados. Faço-me vazante e me revelo junco.

Sempre fui porto nessas águas. Agora, aqui de barro e sangue, parto o que me é verdade e nunca quis. Algo de mim se entrega, mas reconheço que devo resistir. Reconhecer, verbo que exige distância. Olho pra mim fora do meu corpo, suspenso no espaço indivisível, a lâmina desse rio estrada. Meu madeiro está vazio. Alguém espera.

Não existo em mim agora, desengano-me nesse abraço, o sereno corpo de uma verdade exposta. Silhueta-me no meio de tantos outros eus que asfixiei em mim. Todos me calam e leio a palavra ágrafa. lnsinceridade.

O trapiche existe pra que eu queira voltar. Benigna água.

A tarde desvenda a lançante, como é úmido esse ar fêmeo. Vozes se encerram nas velas, falam dos corpos que vêm dar na praia. De várias marés se faz minha partida, ímpar, agora, essa corda que me desata. Água, uma possibilidade confidente. O norte é a cidade acima. À beira, o sal que me escorre do ventre. Recolho minha âncora incrustada de corais.

Ser o rio, a história das águas. Taumaturga vontade.

A foz, a crença em outra carne. Lanço-me água-viva.

O que me move está submerso e meu porão alaga um desespero quando se acusa cansado. Escrevo-me na letra desse rio, desosso-me e abro minhas veias barrentas. As águas se fazem força, me arrastam e se dizem caminho. Não. O sentido do rio também é dito no tempo das minhas mãos. Meu nome está inscrito nessa palavra água que busco. Palavra oculta que deságua meu nome em outras terras.

Eu, o corpo presente. Minha pele, a água desnuda.

O caminho nascido sobre as montanhas. De uma rocha congelada o veio da vida. A nascente. A vida que existe pra ser sofrida. Esse último instante que se faz todo saudades. Todos sabem, as águas cobrem as pedras. No cais do porto tu me dás adeus.


Daniel da Rocha Leite,
do livro “Águas Imaginárias”
POSSUÍDO


um haikai se quebra
criaturas poéticas alargam a cova da vida

oh terrível — efêmera poezia

estilhaços de neón na casca do céu
um clamor se alastra na queda da noite

sentir é ato solitário

opulento me possuo — e posso ido
sorver a idéia de ser mais que o Mar Absoluto
lavar as mãos sujas do afago e do golpe

parecer Outro


Dand M,
do livro “possuído, ou a diluição de lorena”
XXVI



ó barcos - para onde ides?

que tão longuíssimo braço de rio

vos ata e afoga

em que águas remotas

de que beleza guamada?

ó barcos que vão pescar

fui eu quem vos sonhou - me levem convosco!

Ápires

Estela do Mar

Dois Irmãos

ouvis este chamado

a poezia se formando

dos ossos deixados no cais

em mim

ouvis!

mas não partis

não vos repartis de mim

ó barcos feridos no horizonte!



Dand M,
do livro “BRANCO - ou 33 poemas diluídos”,
p o e m a l í q u i d o nº 3


sobre as margens que vão enlouquecer

searas

restos de alvorada

o entardecer despe-se em mim

e

diz

:

secretas flores

troncos nus

brumas cortadas

açaizeiros tesos

esteios d’água

e


cala


Dand M,
do livro “André Invisível”
A Corda da Fé

A corda
é uma oração de pés e braços
de mãos seguras
em corpo-a-corpo e desespero
mil almas amarradas e libertas
unidas e desunidas em mil cores
mil caras de mil partes
mais de mil portes
mais de mil faces
mais de mil preces
mais de mil pedidos explodindo em êxtase
explodindo em olhos
em poros, pêlos e apelos
..............................................
A corda é um rio que leva na viagem
é água que lava tudo e todos numa chuva.

Benedicto Monteiro
NOTURNO SER

São os lábios da noite que me
visitam e me lambem,
lazarento cão. Esperas

Só os lábios da noite me excitam
e libertam,
louco amante. Quimeras

Se os lábios da noite hesitam
a língua
lateja no céu das eras

Sem os lábios da noite me ficam
o luar
e o leve vazio. Inútil aquarela


Aristóteles Guilliod de Miranda,
do livro, “Para além dos alísios”, 2003