Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
www.culturapara.art.br

21 de fev de 2010

O SALTO

A moça disse: vou pular daquela pedra ali. A pedra era uma falésia de cinqüenta, sessenta metros, ou mais até, que produzia sombra na enseada onde nadáva­mos. Realmente, logo apareceu no topo do paredão. Se estivesse pálida ou crispada não saberíamos reco-nhecer, mera silhueta, vago arbusto talvez. Ela gritou: ei, pessoal. Saltou em seguida, o corpo reto de peixe, voavam os cabelos na extremidade do peixe ou da flexa, que a velocidade era de flexa, instante de beleza. A cabeça mergulhou nas águas pilotando o corpo retesado, espada súbita. Pouco depois, à superfície tornava e deixou imóvel ficar-se flutuando, as pernas abertas, os braços abertos, a cabeleira soltando-se e espalhando-se feito algas, como os afoga­dos boiando, que só se mexem quando a tração das águas, ou o vento, os impulsiona. A moça, sempre a conhece­mos assim, íntima do mar, no qual brincava como os peixes brincam, ou os pássaros no ar, ou as crianças em qualquer pedaço de chão. Devagar a princípio, a seu redor, todos notamos que a água começou a manchar-se de vermelho.


Haroldo Maranhão,
do livro “Voo da Galinha”

Nenhum comentário:

Postar um comentário