Este blog contém alguns poemas publicados na Agenda da Semana do site Cultura Pará.
www.culturapara.art.br

21 de fev de 2010

MAX MARTINS: O ATO PURO DA LINGUAGEM


Como se efetiva o encontro com uma linguagem nova? De que forma ocorre a descoberta dessa linguagem, o momento fulminante que leva alguém a tocar uma expressão, despertando para a sua reverberação ininterrupta?

Tal movimento enigmático acontece, muitas vezes, quando o processo está em curso, ou continua ao longo da vida. É como se houvesse brechas que libertam uma luminosidade peculiar, leves indícios revelados num instante inexplicável.

Na verdade, sabe-se que nesse silêncio recatado algo paira sobre a efusão feroz, revolvido por uma combustão invisível que só o encontro com a palavra absoluta e autêntica poderia porventura explicar. Emily Dickinson dizia que reconhecia a poesia genuína quando sentia uma espécie de choque elétrico cruzar sua espinha dorsal. Max produz esse efeito, hoje em dia raro.

Suponho que a “solidão essencial” defendida por Maurice Blanchot é uma via de iluminação que acaba por caucionar tais fatos que nos levam ao encontro de uma poesia.

Max deve ter vislumbrado isso tudo.

Em São Brás, na cabana do Marahu, observando uma lápide no cemitério da Soledade, deambulando pela cidade ou rasurando uma palavra no poema escrito.

No início dos anos 80, em Belém, a circulação da poesia que aqui se produzia era precária; pautava-se pela ausência real. Curiosamente, essa produção secreta continuava pulsando naquele que pertencera a uma das gerações mais criativas surgidas no Pará. Max Martins era um destes criadores que herdara toda uma tradição.
Soubera filtrar e renovar toda essa herança intelectual e literária, fortalecendo sua base com a riqueza imagética, rítmica de sua própria poesia. Creio que isso dificilmente se repetirá.

Sua dedicação à poesia superou cronologias, estilos, modismos, sem jamais se acomodar em sua expressividade. Ele escrevia para além de si, projetando sua ressonância para além do tempo estipulado, como todo grande poeta é capaz de fazer.

Conheci-o quando trabalhava na SUCAM. Recordo-me ainda a noite em que autografou meu exemplar de Caminho de Marahu, e em seguida dispus sobre a mesa as primeiras edições de O Estranho, H’Era, O ovo Filosófico, O Risco subscrito, e o sorriso tácito que se abriu em seu rosto.

As visitas vespertinas à SUCAM tornaram-se regulares, e as conversas nos encontros fortuitos pelo bar do Parque, ou quando o encontrava por essa Belém arcana, úmida e noturna, furando túneis de mangueiras entre madrugadas etílicas.

Meu destino parecia estar traçado – descobrimos depois como voltamos sempre ao início – e a cidade transformou-se num lugar “aonde se ir”, mas não estar, nem viver.

Tinha a certeza que, apesar da distância aumentando cada vez mais, a poesia do Max continuava a reverberar em mim, à revelia da deriva que me levara para outras geografias. “Saltamos e pulamos, como sapos”, diz um verso bizarro e longínquo de Pessoa.

Mais de quinze anos na Europa consolidaram minha convicção de que o Max conquistara seu lugar de direito como um dos poetas mais genuínos do Brasil, embora o desconhecimento sobre sua obra avançasse impiedoso.

Viver em Belém jamais diminuiu a vitalidade da sua poesia, só entrincheirou-a num isolamento injusto. A sua obra aguarda ainda o reconhecimento urgente. Sua vida na cidade reforçou ainda mais sua originalidade, e o adensamento dessa voz que atravessou sucessivos surtos criativos, demonstrando como os pormenores geográficos não domam a criatividade e o gênio de um poeta. Ele cria seu tempo e as suas fronteiras.

Max dominava sua voz e sua expressão como poucos. O seu diapasão poético é suscetível de se identificar logo à partida. Soube – e utilizo aqui uma imagem derradeira de “Problem der Lyrik” do poeta alemão Gottfried Benn – apanhar a lança e jogá-la para frente, para que outro poeta a descobrisse e desse continuidade a essa corrente de renovação necessária.

Ele atravessou décadas criando, explorando, exprimindo-se. A tensão de sua poesia manteve-se intacta, nova e verdadeira.

Se observarmos a poesia feita por autores brasileiros próximos da sua geração – Ferreira Gullar ou Manoel de Barros, p. ex. – ver-se-á como permaneceu fiel a si mesmo, escavando sua linguagem poética densamente sensual, pródiga, contemporânea.
Quando pensamos nos poetas que continuam a produzir pelo mundo – Bonnefoy, na França; Geoffrey Hill, na Inglaterra; Carlo Edmundo Ory, na Espanha, Herberto Helder, em Portugal ou Andréa Zanzotto, na Itália – vê-se como a poesia do Max perfila-se com toda justiça ao lado destes poetas.

Mas agora o Max mudou-se, como sempre fez em sua poesia. Cabe aos jovens lerem a sua obra. Descobrirem seu fascínio visceral. Tocarem na pele dessa poesia vertiginosa, entregar-se à ascese que cada poema dele nos oferta. Max nunca perdeu o seu ponto cardeal, nunca desvirtuou sua poesia, mergulhou fundo na exploração e na experiência da linguagem.

Um poeta estabelece seus limites, ou supera-os, reconstruindo-se sempre. Essa forma fecunda de encarar a linguagem – “ a fera nos lambendo” -, olhando-a nos olhos, é um dos modos mais eficazes para efetuar a aferição do ponto exato em que um poeta chegou. Max Martins é uma floresta poética pronta para ser descoberta. Cabe a nós que o lemos há muito tempo – com entrega e devoção amigas – apontar aos que estão por vir a grandiosidade dessa poesia. O que ela nos mostrou e mostrará continuamente como ato puro de vida e linguagem.



Jorge Henrique Bastos

Nenhum comentário:

Postar um comentário